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30 novembro 2006

72



(Atrelado e inspirado no "Koan" do Pituco)
ESPELHO DE FRENTE PRO ESPELHO

O QUE REFLETE?
REFLETE O QUÊ?
ESPELHO DE FRENTE PRO ESPELHO
( Tony Pituco Freitas )

Reflexão
ROGERIO SANTOS

Os olhos do pobre refletem o medo
Os olhos do rico, pardieiro
Os olhos da puta refletem desejo
Os olhos de quem paga, desapego
Os olhos do menino refletem desespero
Os olhos de quem passa, apelo
Os olhos do padre refletem bueiro
Os olhos de quem peca, dinheiro

Os olhos da moça refletem veneno
Os olhos do sacana, tempero
Os olhos da desgraça refletem desprezo
Os olhos do preconceito, guerreiro
Os olhos do cantor refletem apreço
Os olhos da platéia, recomeço
Os olhos do pai refletem tormento
Os olhos do filho, desalento

15 novembro 2006

09 novembro 2006

70


( "Sobre Luz e Retrato" de Diego Rinaldi )

Composição
ROGERIO SANTOS

são tantos
teus predicados
que de sujeito simples
passei a indeterminado

adjetivos escorrem
na tocaia da língua

trêmula trema trama
esse u que urdo
no exato espaço
entre um ponto final
e a próxima linha

por ora consoantes
deixo reticências
enquanto namoro
advérbios de tempo
lugar e intensidade

07 novembro 2006

69


(Foto: Rogerio Santos )

Mar de Amor
Letra: Rogerio Santos
Música: Floriano Villaça


Na beira de um mar de amor
Melhor
é saber contemplar
Esquecer
a pressa e admirar
Melhor
que dizer é calar
Melhor
se perder na paisagem

Na beira de um mar de amor
É preciso ter coragem
O mar convida a viagem
Farol revela uma imagem
Morena,
com seu alguidar

Na beira de um mar de amor
Não
pedras nem rochedos
O mar acalmando os medos
Esconde bem seus segredos
Num convite a velejar

Na beira de um mar de amor
Depois
de passado algum tempo
As velas tremulam no vento
E o barco do sentimento
Prepara
sua cabotagem

Na beira de um mar de amor
A areia não gruda na pele
A saliva turva não repele
A espuma talvez revele
O gosto do sal a provar

Na beira de um mar de amor
Perigoso
é ser tragado
Por um olhar enamorado
sereia em seu reinado
Fazendo a pele enrugar

Na beira de um mar de amor
Sabor de fruta madura
Beleza
de rara candura
Água
bate até que fura
Lambendo o que era miragem

Na beira de um mar de amor
Há lenda de muito naufrágio
Quase
sempre o mesmo adágio
É pagar esse pedágio
Limite para mergulhar

Na beira de um mar de amor
A estória encontra o destino
O homem virando menino
Segue firme em desatino
Sem medo de se afogar

06 novembro 2006

68


(arquivo de família - Lagares da Beira - Portugal )
Matuto
ROGERIO SANTOS

quando me chamam poeta,
reluto:
(isso é coisa de gente letrada)

não domino
cancela, balança, escotilha
não determino
gerúndio, pronome, cedilha

em palavras cruzadas
embalo balaio confuso
apenas pressinto
um poema jorrando
e sei bem
que não passo de um puto