Visualizações

19 janeiro 2021

581

 












Costa da Lagoa
ROGERIO SANTOS
(para tema de Chico Saraiva)

base, trincheira
abre toda a beira
clave primeira
casa da costeira

aconteceu certa vez
Iara mãe das águas
ouviu meu violão
chegou pra namorar
e se encantou

corte, clareira
barra, corredeira
duna, esteira
doma feiticeira

quando ela vem me encontrar
um coro de cigarras
irrompe pelo breu
seu corpo envolve o meu
até queimar:

“...e antes que o céu mandar
eu volto pra te ver
encontro beira mar
no canto do tiê

te chamo, vem silvar
e sou no seu querer
no som, no respirar
viajo com você...”

moro na praia de lá
onde a lua vem nascer
sempre que a noite chegar
minha canção vai dizer

moça dos olhos de areia
enche de azul meu viver
um vagalume clareia
enquanto espero você

moro na praia de lá
onde a lua vem nascer
antes da noite acabar
minha canção vai dizer

um conto de caiçara
uma saudade a doer
sempre que canta a cigarra
sempre que canta o tiê

/

03 outubro 2020

580

 


Modinha do Adeus (dedicada a meu pai)
ROGERIO SANTOS
(para a melodia de Lucas Telles)

dedilhei meu violão - dilacerado
que um coração já tão cansado
pede licença pra parar
e se encantar

viver tem seu momento delicado
quando o presente é só passado
desilusão não alimenta ilusão

eu que me entrevei
em seu olhar de solidão
sinto amor, saudade, gratidão

eu que relutei
em te entregar numa canção
digo a dor, que não


/

06 abril 2020

579


Eternidade do verso
ROGERIO SANTOS

sempre que um verso nasce
a eternidade encarna a arte
sempre que um verso nasce
a eternidade encara a morte
e samba na sua cara
que a poesia é bem mais forte
que a sua face mais feia
na nostalgia de Cartola
na fantasia de Candeia
uma canção dita a sorte
de quem a vida semeia
vence a foice e a maldita
que a parceria é o norte
onde pulsa a melodia
mesmo que a matéria finde
como tudo finda um dia
renasce, samba e desafia
que nunca morre quem canta
a morte passa e a vida encanta

22 março 2020

578



Pensata

o tempo escapa por entre os vãos dos dedos
as linhas das mãos são somente cicatrizes

08 março 2020

577



Restinga
ROGERIO SANTOS

quem vai chegar e traduzir
quem vai soprar a melodia
quem vai jogar com toda cor
que vai florir

vem no ar a primavera
vem cantar Nuvem Cigana
tanto faz se o tempo é de chorar
se já não vale fingir

quem vai voar
contar com o vento?

quilhas no ar riscando o céu
dançam no azul as andorinhas
tem tanta vida por aqui
no fim de tarde há mais

Talha-mar em cantoria
João-de-barro encerra o dia
despertar pra hora de dormir
se já não cabe fugir

quem vai voar
contar com o vento?

/

29 outubro 2019

576




Gangorra
Música: Rogerio Botter Maio
Letra: Rogerio Santos

(I)
ela alucinou
nem percebeu que se apegou
que se apagou e se encolheu
e quando aconteceu

pôs seu coração numa roda gigante
era tão frágil

(II)
ela delirou
ensandeceu e se entregou
não perguntou nem respondeu
e quando aconteceu

lá 
onde ela imaginava uma roda gigante
era uma gangorra que nem se moveu
a solidão bateu

(III)
ela duvidou, estremeceu
nas se acalmou
se perguntou e respondeu
e quando aconteceu

agora só
nem se lembrava da roda gigante
na sala de espelhos se reconheceu

um turbilhão varreu
o espelho que era meu

/

24 agosto 2019

575




Água Mole
ROGERIO SANTOS

tudo que o amor toca
está solto
é mar em ondas
e sol em sombras
é água fresca
serpenteando caminhos
ilusão de ótica
em olhos marejados
e não deixa dúvidas
de tantas que são
cabem todas elas
numa mesma erosão

/

05 maio 2019

574




Samburá
Letra: ROGERIO SANTOS
Música: IAN FAQUINI

Quando o vento vem pra valer
Marinheiro que cai no mar
Olha o céu, sabe a sua lei
E as histórias que te contei
Halo longe na lua cheia

Tempestade não tem rumor
vem no tempo que ela quiser
E o velacho há de virar

Tempestade não tem rumor
É na lenda que vai viver

Tempestade não tem rumor
E a madeira que cai no mar
Cadafalso há de virar

É o barco seu grande amor
Gira o leme sem duvidar
Vê estrelas num céu inteiro
Tem os olhos de samburá
Tão brilhantes que vão cegar
  
Vê um peixe-mulher moreno
Marinheiro quer namorar 
É o corisco que desejou
Tem um cheiro de enfeitiçar
Tem o canto do sabiá

Deus do céu é quem salve ele
Que a sereia já vai levar

Marinheiro é um beija-flor
Tudo é doce no seu mirar
Envolveu-se foi por inteiro
No meio do seu enleio

Esse vento que vem de lá
Essa lenda quem vai soprar
Marinheiro que cai no mar
Acha sempre que vai voltar
Morre dentro do seu olhar



09 abril 2019

573


Seanger
ROGERIO SANTOS

segue a vida, caminho de rio, por entre mistérios de colinas e florestas, insetos e aves, medos e meandros, que não impedem o que vai desaguar no mar. o azul é imenso, engole e carrega sonhos e mágoas, domador de tempos e velocidades, minimizador de ruídos. é grandeza de conteúdo sem tradução, despreza os sentidos e afoga palavras e silêncios. o curso da vida é um poeta, e o mar, é uma mulher quando canta.

02 abril 2019

572



Ilustre desconhecida
ROGERIO SANTOS

(1)
Foi como mergulhar
Numa abissal brasileira
Pronta pra despertar
Quando o sono revela

Sábia de me iludir
Inventar a verdade
Ser, não ser, perder, procurar
E perguntar: quem sabe?

(2)
Na hora de entregar
O meu olhar de querela
Décimo quinto andar
Vou saltar da janela

Pensam que vou cair?
Sou mulher e arandela
Sei brilhar e vou flutuar
A valsa vai por ai

Refletir as estrelas
Ser o chão às avessas
E na copa de uma sumaúma
Um trapézio de cordas falsas 


Pra enfeitar a praça

E o viço que virá, seguirá
Mesmo se o mundo esquecer
Alguém dirá: - Ir e vir, ir e vir

Seguir!

(3)
Quando for decifrar
Minha aflição paralela
Ninguém há de calar
Tão sutil primavera

Canto pra resistir
E ganhar a cidade
Conhecer pra desconhecer
Entreconhecer pra reconhecer

Contos de ir e vir
Contos de ir e vir


31 março 2019

571


                                       quadro ilustrativo: em carne viva
                                (autora: Vanessa Rodrigues - RJ)



Carne Viva
ROGERIO SANTOS

(1)
Servir a carne
Sentir a dor que me consome
Na viva carne
Ser a mesa, enfim

Alma verdadeira
Sabe o que me dói
Na solidão?

O amor
Santa ceia que há em mim
Devorar, ferir

(2)
Servir a carne
Sentir a dor que me consome
Na viva carne
Ser a mesa, enfim   

Mágoa derradeira
Sabe o que me corta
o coração?

O amor
Retalhado por aí
E eu sangrando aqui












20 maio 2018

570




Premente
ROGERIO SANTOS

para o seio do desvelo
nem os meus olhos pisco
velo o teu corpo, corisco
quero tuas mãos espalmadas

nas linhas, minhas estradas
nos sete buracos da face
os plugues sublimes da arte
de te amar solenemente

entrego meu corpo premente
e ofereço-me morada
para deleite e jornada
sangue e carne, cerne e pelo

/

09 abril 2018

569



Reflexo
ROGERIO SANTOS

na órbita da poesia
sigo

turismo fino
pela trilha das palavras

os olhos viajam
na madrugada 


um templo de estrelas
na janela da sala

tudo é delírio
e silêncio absoluto

o céu reverbera
o que em mim brilhava

22 março 2018

568






Temporal
ROGERIO SANTOS

é um cisco, o tempo
é um círculo
é um cimo, o tempo
é um circuito
é um cinismo, o tempo
é um cilindro
é um cisne, o tempo
é um sismo
é um cio, o tempo
é um circo
é um siso, o tempo
é um cirro,
é um sino, o tempo
é um ciclo
é um ciclope, o tempo
é um cisco.

/

13 novembro 2017

567






Metade
ROGERIO SANTOS

tento sentir os buquês
tento apurar os sentidos
tento conter os lugares
tento limpar os ruídos

tento romper as lacunas
tento afinar os ouvidos
tento focar os olhares
tento vingar os vencidos

tento inventar os caminhos
tento escolher os motivos
tento saber a metade
tento escutar sem juízo

tento pensar: pode ser!
tento domar os perigos
tento buscar a amplitude
tento cantar, que é preciso

13 outubro 2017

566



Oração
ROGERIO SANTOS

Dai-me clareza, ó pai
para intuir a beleza do verso
que habita recôndito
a face oculta e inesperada
dos escombros que miro


/

14 setembro 2017

565



Análise Sintática
ROGERIO SANTOS

as palavras 
acordam e dormem
no dicionário

mas só trepam e gozam
nos poemas

/

03 agosto 2017

564




Caetanear
ROGERIO SANTOS

um desejo à flor da pele
eu na tua pele
calmamente tatuando
frases pilhadas
das canções de Caetano
é amor, não há engano
e não importa
delimitar o plano

/

12 julho 2017

563




Châtelet
ROGERIO SANTOS

sopro um poema
na ilusão impossível
de navegar as águas do Sena
e flechar o coração
da musa distraída que flana
- linda e plena

/

10 julho 2017

562




Palavra Empenhada
ROGERIO SANTOS

no prego
deixo as palavras que me restaram

com o trocado
compro uma passagem de ida para pasárgada

...um dia eu volto e resgato
...faço um livro e distribuo de graça
...faço uma letra de canção e canto

deixar minha poesia para esses usurpadores?
...nem morto!

/

09 julho 2017

561






Rio Tietê
ROGERIO SANTOS

tem um rio que atravessa no meu peito
tem um rio que atravesso - não tem jeito
todo dia; e mais dia, menos dia; sem efeito
tem um rio que reclama por respeito

tem um rio que ainda nasce como sempre
tem um rio que remorre lentamente
tem um rio de silêncio que se move, rio de gente
tem um rio que apanha do afluente

tem um rio de safena de concreto
tem um rio onde peixe passa reto
tem um rio que o dinheiro fez esgoto, fez dejeto
é um rio que envergonha o que é correto

tem um rio, rio de culpa, rio de resto
tem um rio por quem choro nesse verso
virou rio de descaso, objeto predileto
dessa farsa que eles chamam de progresso

/

18 junho 2017

560



Cacos e Argila
ROGERIO SANTOS
(para Paulo Nunes e seu poema ALEPPO, BENTO RODRIGUES)

de cacos e argila
- o coração -
carrega uma vila

de alumbre e penumbra
- o coração - 
ainda assombra

de natural teimosia
- o coração - 
ainda bomba

onde a morte persiste
- o coração -
é um dedo em riste





16 junho 2017

559


Istmo
ROGERIO SANTOS

era um tempo
de portas fechadas
e chaves escondidas

mas vi estrelas
que brilharam verdes
na noite do céu do Saara

o peito atravessado 
pela Cordilheira do Atlas

degelo
lágrimas inventando um oásis 

o silêncio que hoje me orbita
o barulho hoje me habita
tem olhos de tâmaras

o oceano que separa
é o mesmo que une

o istmo é o destino


15 junho 2017

558



O canto e a asa
Música: IAN FAQUINI
Letra: ROGERIO SANTOS

(I)
uirapuru 
vem valer esse teu cantar
adentro a densa mata

uirapuru
meu sofrer de fazer cortar
transborda a natureza

me conta como fez
para o Deus Tupã
te dar o canto e a asa

uirapuru
meu amor de doer
eu canto pra você 

(II)
uirapuru
diz a lenda, quem te avistar
tem por direito um desejo
pra reclamar

eu vim pra cá
pra me encantar
e vou trocar
com você de lugar

/

13 junho 2017

557




Prego
ROGERIO SANTOS

na cabeça de um poeta
o poema é sempre à quilo
farinha, água e forno
massa sovada em língua pátria

o imbróglio está no embrulho
inacessível por um lado
leque de possibilidades por outro

portanto, não crucifiquem o incauto

prego, é um simples pão com carne

/

12 junho 2017

556



Cultivo
ROGERIO SANTOS

há quem saiba compreender um olhar
eu posso afirmar que não sei
mas se um olhar me atinge
também não fujo
com toda paciência do mundo
colho e dele me alimento

depois de saciado
semeio palavras e cultivo sonhos

a beleza não é afeita a compreensões

/

05 junho 2017

555




Zigue-zague
ROGERIO SANTOS

você não é você
mas é você que eu vejo
encaro o zigue-zague
dos meus medos
rabisco a folha branca
que te entrego
e digo o que te digo
com meus gestos
você não é você
mas é você que eu quero

/

13 novembro 2016

554




Quebra-Cabeça
ROGERIO SANTOS

a vida com você
merecia pairar no tempo.

e fosse num dia azul,
amanhecendo de leve,
com sol, planos mínimos,
e sonhos aleatórios.

um cheiro de café,
o canto dos pássaros,
e o barulho das ondas
rompendo a mansidão
da Ilha Comprida.

no momento exato daquela chuva,
o limão e seus desdobramentos.

a hora sagrada
da multiplicação dos peixes
e do tilintar dos copos
e das garrafas de vinho e cerveja.

o riso exagerado,
os melhores amigos,
e a preguiça na rede.

não cabe culpa,
até as plantas estão felizes.

a brisa leve
clamando o início da noite,
a visão das constelações
e um passeio
regado de lua cheia e amor.

as mãos dadas
e as linhas entrelaçadas.

um dia desses bem comuns
que começam despretensiosos
- e jamais terminam.

quando toda conversa
que pensamos jogar fora,
monta um quebra-cabeça
que vira poesia.

nesse dia tão perfeito,
até as louças são autolimpantes.

/

06 novembro 2016

553




Vértice
ROGERIO SANTOS

vértice
a linha da vida
encontra a linha do amor

vértice
o ponto mais alto do eco
do grito-canto-canção

vértice
o tato da planta do pé
no plano incerto do cocuruto

vértice
o topo da pirâmide
aponta a ponta do iceberg

vértice
a Terra do Fogo
congela no topo da América

vértice
a palavra certeira
no bico de um avião de papel

vértice
a verdade pontiaguda
quando verte-se, é poesia




/

30 outubro 2016

552




Primeira Pessoa
ROGERIO SANTOS

um fog encobre
a próxima palavra
um gole e lá se vai
o penúltimo neurônio

o tempo é impiedoso
e não amortiza a conta

o fogo queima
a madeira do alicerce
um político castra
a próxima criança

em nome de Deus
tudo vale a primeira pessoa

o pretérito imperfeito
o futuro do pretérito
o hoje escrito em telas
que sepultam canetas

em frente do que é meu
um poeta sem estatura
reclama o que era nosso

os dedos apontam sua face
as bocas metralham frases
discursos mais-que-perfeitos
elaborados em horário nobre

a vida suplica poesia coletiva
mas é reduzida ao individualismo
- pobre