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14 março 2008

161



Roleta Russa
ROGERIO SANTOS

estatística
estática
astasia tísica
catita titica
tática states
iate tati
tesa teta
seta isca
asta taca
tic
...tec
tic
...tec
tic
...tec
tic
...TÁÁC
cai
.cisa
..cista
...estase
....astasia
.....estática
......estatística

13 março 2008

160


(foto: Rogerio Santos)

Acalanto para uma tarde chuvosa
ROGERIO SANTOS

talvez
não seja fácil
o viver feliz

talvez
não seja lindo
esse meu nariz

só sei que quero bem
a flor do meu jardim
só sei que vou além
e quero ver sorrir

talvez
não haja graça
no meu caminhar

talvez
te de na lata
de me reprovar

mas danço mesmo assim
não quero nem saber
o que tu tens em mim
ninguém pode conter

talvez
meu argumento
não te faça rir

talvez
tu queiras algo
que não pode ter

mas tenhas gratidão
com tudo que provém
e tenhas compaixão
por menos que te dêem

talvez
não haja jeito
para compreender

talvez
não haja brilho
nesse entardecer

com isso a noite vem
e abarca a solidão
aperta uma tristeza
dentro do coração

mas vais viver feliz
se meu olhar traduz
espelha tua alma
espirito de luz

05 março 2008

159


Tacógrafo
ROGERIO SANTOS

sono

o ponto-morto
é o disfarce perfeito

ninguém perceberá
o motor ligado
e os faróis acesos

esquina
rua estreita

pardal
eletrônico

máquina
...cápsula
......catapulta

vida contada
em quilômetros rodados

03 março 2008

158



Extended Play
ROGERIO SANTOS

tchau
...tchau
....e tchau

vou morar
numa estação
orbital

girar
...girar
......girar

satélite
do seu globo
ocular

rápido
...lépido
......cálido

em 45 rotações
no sulco
da primeira faixa
de um disco voador

28 fevereiro 2008

156


Coma
ROGERIO SANTOS

na
alma
um
dano
no
crânio
um
dreno
na
mente
um
plano
um
leve
aceno
moeda
como
poema
fono
fonema
pomo
:
poema
pleno

25 fevereiro 2008

155



O poema "153" - Onze Horas, de minha autoria
nasceu após a leitura do poema "Hipótese"
de autoria de Cláudia Gonçalves, no belo blog
"Entrelinhas" ( clique para visitar a página)
Na prática, os poemas se complementam
e tomam forma de um único texto
Cláudia Gonçalves tem um amplo histórico em duetos poéticos
De minha parte é a primeira experiência nesse sentido
e agradeço a generosidade da autora em aceitar
essa parceria poética com jeito de canção.
Mais que isso, pelo incentivo a mais esse desafio.

Hipótese
CLÁUDIA GONÇALVES
ROGERIO SANTOS

bem que poderia
o dia equatorial
burlar a sina

bem que poderia
a pira do sol
se despir poesia

enfeitar o dia
com onze horas
de final de tarde

bem que poderia
quem sabe um dia
bem que poderia

embocar a boca
na boca da noite
boreal

bem que poderia
livrar a noite
das lentes escuras

e você me ver passar
no meio da multidão
só pra falar poesia

bem que poderia
do bolso da madrugada
sair um verso

luz sobre o breu
um poema só pra gente
universo meu e seu

24 fevereiro 2008

154



Cardápio
ROGERIO SANTOS

ofereço (me)
on the rocks
servido puro
ou club soda
a quem possa interessar
copo longo pele e pêlo

ofereço (me)
batatinha
cozida ou frita
em testosterona
a quem possa interessar
uma orgia bem calórica

ofereço (me)
destilado
em instigantes
pequenas doses
a quem possa interessar
absinto pisco sour

ofereço (me)
antepasto
cervejinha
sobremesa
a quem possa interessar
chantilly tenros morangos

mas atenção
:nossa casa
tem algumas regras

:não atendemos
almoços e jantares
:não funcionamos
as segundas-feiras
:não reservamos mesa
:não aceitamos encomenda

atenciosamente
- a direção

21 fevereiro 2008

153



Onze horas
ROGERIO SANTOS

bem que poderia
o dia equatorial
burlar a sina

bem que poderia
o sol
se trocar poesia

enfeitar o dia
com onze horas
de final de tarde

bem que poderia
quem sabe um dia
bem que poderia

embocar a boca
na boca da noite
boreal

20 fevereiro 2008

152



Martírio
ROGERIO SANTOS

mar de libido e orgasmo
sugando mergulho balé
mar de foice e deleite
de quem aprecia pescar
mar que por vezes inverna
mas sabe-se festa no olhar
crava imagem litoral
e literalmente maré
até o tempo embalar
as ondas em ondas de fé
e vento até tudo girar
num maremoto de sal
salmoura a cicatrizar
laser luz fitoplâncton
manuscrito de mar morto
terra margem prometida
mar de desejo platônico
de quem habita planalto
canto gentil de Calypso
nas rochas da Ilha de Gozo
esse mar sabe me chamar
esse mar quer me levar
esse mar sabor mulher
mulher com mania de mar

14 fevereiro 2008

151



Apologia
ROGERIO SANTOS

creio que toda mulher seja um mundo fascinante
por isso confesso meu sonho de consumo mais secreto
: um potente foguete interplanetário
e o gozo de um ano sabático

e peço perdão por meu fraco
se vivo usando lunetas
se miro o céu e as estrelas
e as vezes pareço lunático

150



O amor quer o mar
ROGERIO SANTOS

amor merece o mar
amor quer harmonia
amor de mergulhar
amor acorda o dia
amor é de sonhar
amor é de alegria
amor sabe entregar
amor contém magia
amor vem pelo ar
amor com valentia
amor rima no amor
amor com dor não rima
amor aceita flor
amor beija ferida
amor não quer favor
amor de mel e sina
amor sem rotular
amor não dobra esquina
amor à sete chaves
amor hemorragia
amor só quer o mar
amor de sal e sina
amor só quer amar
amor por toda vida

08 fevereiro 2008

149



De cais
ROGERIO SANTOS

tua voz
chama
da beira
desse cais
corpo

confinai
um grito
embarcação

arrasto proa
pele mastro
embargai
crua luz
taiti de nós

pero vais
évora
vento moto
evoco
santo dia
gira sóis

vela em ti
tua voz
ávida
veloz

corte amores
amarras
olhares de mim

rastro de luar
no mar
decais
na luz
crepuscular

31 janeiro 2008

148



Primas e rimas
ROGERIO SANTOS

hoje virou modinha
como kiwi na caipirinha
um ou outro poeta
condenar o verso em rima

gritam que é arcaico
que empobrece a poesia
como coisa que poema
fosse afeito a maestria

cerveja, por exemplo:
- cê veja que rima com tudo!
e é vocábulo promíscuo
na baixa gastronomia

limão rima com pinga
e se deita à bistequinha
se der um caldo na anchova
não ache que é perda de linha

(sem falar da saladinha
aquela bem safadinha
de alface, cebola e tomate
rainha das preliminares)

gin com tônica dá rima
conhaque vai bem com charuto
cereja procura o martini
como uísque ao guaraná
(aliás, nas costas da a água-com-gás)

alguns um tanto "old fashion"
constroem o verso e a rima
como quem acha que prima
é só aquela filha da tia

sem tempero não tem jeito
nem salada nem bisteca
não há nenhum drink que preste
nem poema que se preze

mas caçar regra pra ser "cult"
a antítese que me desculpe
camisinha se usa no sexo
não em quem verso esculpe

dedo em riste para o escalpo
rumo em curva ou linha reta
quem puder com ralho e rolha
que rime musa com poeta

22 janeiro 2008

147



Matinal
ROGERIO SANTOS

acordar os acordes
e aflorar a canção
na casa do peito
o passo no tempo
no fogão o compasso
toque de percussão
no tic-tac do relógio
a lembrança da nota
abstrair a música
do café da manhã
dia após dia mirar
navegar a canção
a vida e seu curso
a estação e o ciclo
o amor que renasce
nos pequenos gestos
a criança que mora
no sabor do mamão
e cantar no chuveiro
e cantar todo dia
para espantar os males
e abraçar a paixão

20 janeiro 2008

146



Nós
ROGERIO SANTOS

no jogo silêncio
e nós por dentro
na pele a rubrica
a face rubra
na mão o cabelo
afagolpente
na noite infinita
adornosfurta
o lábio o degrau
a língua absorta
no corpo abissal
edemardente
um beijo um punhal
nacordafruta
perfume quintal
roséa difusa
é descomunal
dualciática
no jogo o silêncio
e nós por dentro
sem sombra nem som
nem som de vento
torrente torpor
em moviemento

19 janeiro 2008

145



Do banheiro
ROGERIO SANTOS
(a Ronaldo Werneck)

aprendi com um grande poeta
que leitura à vera
tem lugar no banheiro
entre uma e outra
necessidade primitiva

afinal de contas
não se usa rosário
nessas horas:
onde o animal aflora
não se conta azulejos

pela incômoda psoríase
cabe bem evitar
certas dores de cotovelo
desnecessárias:

- é sábio
...mesmo longe do copo

16 janeiro 2008

144



Dentro e fora (Autismo)
ROGERIO SANTOS

por dentro um mundo
por fora a casca
portas e janelas
cerradas

por dentro um mundo
por fora há água
frisos e frestas
penetradas

por fora um mundo
por dentro há água
trancas e ferrolhos
oxidados

por dentro um mundo
por fora alarde
alicates, alavancas
e pés-de-cabra

por dentro um mundo
por fora um rito
força de vento
som de atrito

por fora um mundo
por dentro morada
portas e janelas
escancaradas

11 janeiro 2008

143



Provérbios
ROGERIO SANTOS

não tente me alugar
vísceras nem súplicas
sou feliz com meus testículos
e erupções lúdicas

não tente parábola
nem correria no jogo
a bola procura o craque
metáfora é metade meta

não precipite lágrimas
para não desidratar
não aumente o tom de voz
melhor poupar tuas cordas

pegue o fio da meada
névoa baixa sol que racha
gato nasce de bigode
vagalume com lanterna

portanto aceite o caminho
desfrute a simplicidade
plantei na porta de casa
um comigo-ninguém-pode

10 janeiro 2008

142



Aviãozinho
ROGERIO SANTOS

de tanto planejar
enfim chegou o dia
e te dobrei sem escapatória
e te fiz aviãozinho
e com toda força
na corrente de vento
te arremessei bonito
e você voou bem alto
e girou sem medo
bailou sem rumo
e ganhou o mundo
lindo e leve brinquedo
borboleteando
no lume do céu azul

09 janeiro 2008

141




Doce de Poesia
ROGERIO SANTOS
( para Cláudia Gonçalves )

é doce a moça e transforma gesto em carinho
é doce a moça e faz do aceno matéria
é doce a moça e faz maré de magia
é doce a moça e baila nua menina
e flutua, rodopia
e cintila, multiplica
chove noite, dorme dia
chove noite, dorme dia
chove noite, dorme dia
doce, doce
corda, tecla
poesia

06 janeiro 2008

140



Apelo
ROGERIO SANTOS

Não me nine em vão
Não me embale
Não me passe anel
Não me fale
Não me diga sim
Não me deixe só
Não me parte assim
Não me cale

Não me beije assim
Não me false
Não me embale anel
Não me talhe
Não me seja só
Não me siga em vão
Não me deixe enfim
Não me falhe

Não me pode assim
Não me cape
Não me tire a fé
Não me date
Não me seja pó
Não me meta o pé
Não me tenha dó
Não me mate

139


( foto by Cherrie )
África
Música: Marcelo Maita
Letra: Rogerio Santos


desenho
de beira de litoral
teu corpo
é porto de se sonhar
no encontro
mistura de céu e mar
há cores
que os olhos vão marejar
na pele
a ponte da África
cravada
na palma da minha mão


04 janeiro 2008

138



Pluma
(para Tatiana Parra)
ROGERIO SANTOS

um vento joga a pluma no ar
navega pelo céu devagar
te quero linda, muito linda
sol que gira à viajar
plena chama, doce hermana
faz do palco seu altar

eternamente tenha lugar
um sopro até poder respirar
te quero linda, muito linda
nuvem pétala lunar
plena bruma, pluma espuma
faz da voz meu mar

bendito ar te invada os pulmões
o teu cantar valsa aos violões
te quero linda, muito linda
flutuando pelo olhar
plena bruma, pluma espuma
luz e mantra de ninar

03 janeiro 2008

137



Enquanto
ROGERIO SANTOS

enquanto o tempo desata
- nós passageiros -
a flor da simplicidade
amadurece na quinta

enquanto o tempo discorre
na foz do desejo
a cor da complexidade
reinventa arco-íris

é quando o tempo desfila
picardia no picadeiro
cria nova brincadeira
põe para girar o destino

A linha se espreguiça
e despreza as amarras
nunca se importa com nós
- bate-cara -

A linha se espreguiça
e despreza as amarras
nunca se importa com nós
desvenda o esconderijo

02 janeiro 2008

136



(Ciranda: Wanfran Guedes)
Ciranda
ROGERIO SANTOS

o começo
e o fim
são aqueles
dois pontos
onde entramos
e saímos
da brincadeira

24 dezembro 2007

135




Lima-da-Pérsia
ROGERIO SANTOS

não te aflijas
pelo que não falo
que te entrego
tudo aquilo que calo
uma fonte
vertendo teu nome
uma lua
no teu horizonte
essa pele
em busca do afago
no desejo
bem dissimulado
flutuar pelos meridianos
no sorriso
que tenho guardado
nos teus acres
tão bem demarcados
território traído no mapa
no teu viço
por cada centímetro
seja eterno
esse som do teu trino
e o aroma
de lima-da-pérsia
no perfume
na tez do tecido
na visão
paraíso do olfato
paladar
dirigível no tato
ouça moça
no veio do laço
não te aflijas
pelo que não falo

10 dezembro 2007

134



Poema Calado
ROGERIO SANTOS

dá dó de poema
com pouca trama e muita trema
dá nó no poema
o muito drama, a pouca cena
adoro poema geográfico, pornográfico
adoro poema espiral, espacial
dá dó de poema esquelético, arquétipo
dá nó no poema, o lânguido, o pândego
adoro poema de rio, de mar
adoro poema calado; calar
parte, profundidade da fruta
da sanha, da carne, da gruta
nem tudo é pavão, misterioso leito
são rios e rio, e rio calado
embarcado na mesma viagem
em busca do equilibrio absoluto
margem direita palavra
margem esquerda intuição
acionados sonares dilemas
sigo calado e flutuo poemas

133



Arrependimento
ROGERIO SANTOS

Chorei uma Guarapiranga por você
Já fui até Marsilac prá te ver
Pensei em fazer rapel na Sumaré
Quem sabe me vias no SPTV

Eu sei que tem muita gente por aí
São quase uns vinte milhões (ou por aí)
Mas eu sou sentimental, fazer o quê ?
Não fecho meu quebra-cabeças sem você

Não sei bem ao certo porque me abandonou
Meu peito tem hoje mais túneis que o metrô
São Paulo é uma esquina e a gente vai se ver
Não fecho meu quebra-cabeças sem você

Bixiga foi onde tudo começou
Você garçonete lá no bar do PT
Eu ia tomar saideira na calçada
Até te cantar prum café no meu chatô

Do beijo pro amor foi uma questão de tempo
Do amor pro ciúme não sei porque razão
Eu nunca fui homem de bater em mulher
Só nuns militantes do PSDB

Cheguei até Pedra Branca e fui a pé
Olhar lá do alto se via algum porque
Lembrei da minha Cantareira de paixão
Na boca de urna do FHC

O ciclo fechou como uma obturação
Até os "companheiro" são tudo "pelegão"
Eu vou te encontrar numa dessas batucadas
Contar que hoje em dia até eu tô no "centrão"

Comprei um par de sapatos, e dos bons
Comprei duas taças e um moet chandon
É tudo prá ti, meu amor, meu coração
Saudade em doze parcelas no cartão
Dou casa, comida, calor e um mensalão...

02 dezembro 2007

132



Réquiem
ROGERIO SANTOS

um lápis e um segredo
represam um poema
evocam adagas
de géiser-panema

catarro na boca
estrofe latente
um lapso e um desejo
omitem um poema

efunde pelo corpo
febril alarido
ciclone de foice
faz grito no poente

na sombra se cala
o pássaro fonema
a lápide serena
remonta um poema