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30 julho 2013

430



Origami
ROGERIO SANTOS

iniciativa era o que faltava: 
- arrancou um poema de amor do caderno
fez dele um tsuru 
e caiu nos braços do seu desejo de viver


23 julho 2013

429



Flor de Verso
ROGERIO SANTOS

fechar os olhos
abrir a alma 
e perceber que a revolução 
se inspira calmamente

quanto ao recrudescimento
é feito flor de verso 
que sabe a próxima estação


16 julho 2013

428



Breu
ROGERIO SANTOS

não há o que se temer na escuridão
trata-se de oxigênio para o olhar


12 julho 2013

427



Mote
ROGERIO SANTOS

quando é questão de tato, 
quando é motivo de texto, 
a inspiração dá o toque; 
contato e contexto.

11 julho 2013

426



Manifesto
ROGERIO SANTOS

Foi num dia de trânsito que parei na sua. 
Enquanto a Paulista virou um calçadão e meu olhar uma bandeira, imaginei-te uma avenida.

10 julho 2013

425



O Primeiro Haicai
ROGERIO SANTOS

O poeta levantou as mãos para o céu e fez uma oração. 
Duas orações. 
Três orações. 
E foi assim que Deus ouviu o primeiro haicai.

09 julho 2013

424



Senta a Púa
ROGERIO SANTOS

Dizem que Deus não dá asas a cobras, mas libera umas trezentas cadeiras de deputados. Para voar é só acionar a FAB.

08 julho 2013

423




Milagreiro
ROGERIO SANTOS

O velho barbudo limpava peixes e não sabia multiplicar. 
Mas nas madrugadas, transformava vinho em água e era o Deus do lugar.

07 julho 2013

422



Do Calar
ROGERIO SANTOS

Outro dia um cidadão me chamou de poeta. 
Olhei bem, e economizei as palavras. 
Quem fala mesmo é o olhar e o meu anda meio sovina.

06 julho 2013

421



Banho de Sal
ROGERIO SANTOS

Na tramela enferrujada a sombra presume um corpo. 
Não naufraga com seu medo quem mergulha no mar morto.

05 julho 2013

420



Travessia
ROGERIO SANTOS

Com força e coragem empunhou o remo. Nada sabia sobre o outro lado do rio. O que seria a vida senão a própria travessia?

04 julho 2013

419



Guarda-Livros
ROGERIO SANTOS

Aguarda-me sorrindo, feito esfinge egípcia querendo alguém que a decifre e saiba guardar segredo. Perfeito, sou um guarda-livros.

26 junho 2013

418



Próximo Paço
ROGERIO SANTOS

caminhar é preciso

com os pés
e com os olhos

nas mãos
as linhas que se modificam

na mente
a clareza do próximo passo

(próximo paço?)

os poros falam
e é preciso oxigenar os pulmões

gritar
por vezes é preciso

mas é prudente
não danificar os próprios tímpanos

ainda temos uma boca
e, por sorte, dois ouvidos

24 junho 2013

417




Estalagmite
ROGERIO SANTOS

A poesia não surge do nada, 
ela aflora feito estalagmite em caverna 
- gota por gota.

04 junho 2013

416



Ilha
ROGERIO SANTOS

o horizonte o mar o amar são coisas simples quando tudo nessa vida quer levitar é de água-viva o meu olhar beira de areia de algum lugar e há certeza quando uma lágrima vem do sofrer pra refrescar o céu azul e tudo é sim tudo é assim de suspirar e na cadência de mais um dia buscar o eixo pra sustentar se tudo é vida segue no ar toda beleza de recriar o que foi lua feito saudade que vira terra de se orbitar.

19 maio 2013

415




Flor-de-Maio
ROGERIO SANTOS

a folha em branco me entreolha
como quem implora tenras palavras

e eu um tolo de mãos atadas
com a cabeça no outono e sua dança
aguardo a queda da próxima folha
no desencontro da flor-de-maio

enquanto imagino a festa de junho
e me quero balão em noite estrelada
seguimos assim, um não e nada
cola tenaz e papel de embrulho

18 maio 2013

414



Feito Vida
ROGERIO SANTOS

ouvir minhas canções no rádio tem outro sentido
é como se finalmente, fossem bater nos confins do mundo
ecoar e pegar alguns desavisados pelas costas
feito brisa fresca em dia quente
feito brisa quente em dia frio
feito vida quando cobra atenção
quando um tranco chacoalha alguém que desperta:
- "olha, o trem está passando".

por isso, cantar poemas em canções não é uma escolha
é uma doce ironia do destino.
- palavras domando em pêlo o cavalo da melodia -

27 abril 2013

413



Pra quem chegar
ROGERIO SANTOS

(para melodia de Rafael Zoli)

há um templo por viver
quando o senso vem dizer
- salta...
A melodia te sustenta no ar

bem-me-quer ou bem-querer
há palavras pra acolher
- salta...
na poesia que flutua no ar

vou me entregar
voa canção
pluma e paixão
pra quem chegar

17 abril 2013

412



Tipo Assim
ROGERIO SANTOS

meu amor
é "tipo assim"
uma doçura
em céu de brigadeiro
um beijinho
e um quindim

azuzim
feito tarde de outono
quando o sol faz a curva
em desaviso

na medida certa
para esticar o dia
e aconchegar
feito café quentinho aromatizado

meu amor
é "tipo assim"
quando o sorriso
não tem hora
e o cobertor
é coisa de pele

01 abril 2013

411






Gangorra
ROGERIO SANTOS


a vida
é uma verdadeira gangorra

e os amigos
nos ajudam a ficar
bem longe do chão

16 março 2013

410



Medo e Mania
ROGERIO SANTOS

se a gente para pra pensar:

vive com medo
é que o medo, por prazer
acorda cedo
e nem clareou o dia
já trás o pão da padaria
e põe a mesa do café
- te dá bom dia

a gente faz sinal da cruz
e pé na rua
se a gente para pra pensar
é só mania
é tanta coisa pra lembrar
é tanta conta pra pagar
e o trabalho pra sugar
toda energia

mas sempre dá-se um jeito
um tempo natural
de transformar o medo
em harmonia

grafite na parede
grafite no papel
e a próxima canção
virou mania

mania de ter medo
a vida é mesmo assim
com dom compositor
faz transformar temor
em melodia

um medo de mania
a vida é mesmo assim
um jogo de xadrez
com torre de babel
na poesia

13 março 2013

409



Outro Lado do Rio
ROGERIO SANTOS
a vida exige braço.
para o abraço, para o aceno, para o trabalho.
a vida é um coletivo de encruzilhadas.
a vida é o desafio das travessias.
há que se buscar força e coragem para empunhar o remo,
mesmo sem ter nenhuma certeza do que nos aguarda do outro lado do rio.

11 março 2013

408



Nova Canção
ROGERIO SANTOS

o amor quando tem seu dia
é como a letra e a melodia
que se espreitam desconfiadas
até o chão da primeira nota

quando entrelaçam corpo no corpo
e o som da palavra ulula na corda
os dedos da mão costuram a sorte
e o amor é o norte da nova canção

toda canção de amor é bendita
e fatalmente bonita

17 fevereiro 2013

407





Horário de Verão
ROGERIO SANTOS

entristecido, fim do horário de verão
volto os ponteiros, encaminho outra estação
se as folhas caem e a noite logo vem
vem meio-dia ou às onze o nosso trem?

a chuva tarda, tarda o tempo de gostar
do escritório, vejo o sol se derramar
me dá saudade de curtir um fim de tarde
convidativo, com a luz crepuscular

minha cidade não tem praia não tem cais
mas o calor de uma amizade vale mais
e gira o mundo vai mudando tudo então
quanta beleza tem horário no verão

do capricórnio para a linha do equador
do equador para o calor setentrional
minha saudade molha os pés na água fria
enquanto o sol segue a viagem tropical

09 fevereiro 2013

406



Farol 
ROGERIO SANTOS

do barco não sobra nada
não deixa traço
não sobra rastro
no verde azul

é só vertigem
de doma-onda
trama de espuma
de ouvir calar

no mar do amar
um farol 
e a noite cria um dilema

gerar a luz 
e render caminho 
é cais bem longe
do desvario

ficar inerte é egoísmo 
uma ilusão
confim lascivo
na impiedade dos rochedos

colisão ou solidão
são duras possibilidades

405



Minha Terra
ROGERIO SANTOS

quanto desses versos soltos trago em minhas mãos?
flor quando se despetala, outono... ou...

na palavra, um perfume solto na canção
no caminho, vaga-lume e noite de verão
sempre-vivas e bromélias, outras notas, viração


quanto desses versos soltos trago em minhas mãos?
flor quando se despetala, outono... ou não

segue firme seu destino: próxima estação
noutro inverno, tanto frio e um sol no coração
minha terra, minha língua, toda dor na intuição

quanto desses versos soltos cabe em minhas mãos?

quando canto - sempre solto, sempre preso
quem fui, quem sou eu...

(esse texto foi produzido como letra para um tema de canção)

03 fevereiro 2013

404



Jabuticaba
ROGERIO SANTOS

ela tem um brilho em que me espelho
e tem um sorriso em que me espalho
ela tem uma sina no rosto, um desenho de lua
e no centro da lua, a noite em que me espraio
e ali tem uma força, nos olhos de lua e de noite
e ali é que me acendo para desvendar o porto
e ali, intrínseco, o farol da gravidade que orbito
no meio da testa da cabeça feita e iluminada
existe vida inteligente quando entro em parafuso
e mergulho no universo abissal desse poema
que me aguarda sorrindo feito egípcia esfinge
querendo alguém que o decifre e saiba guardar segredo
que decerto, por tão sábias, as palavras não dizem


20 janeiro 2013

403






Vagalume
ROGERIO SANTOS

alua
coração vulgar
a lua

vira estrela
e vaga
divaga
vagalume



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13 janeiro 2013

402



Mar Morto
ROGERIO SANTOS

amar é servir à vida
retrós de esperado instante
por isso estilhaço o estanque
com vento que arromba parede

há sempre uma escapatória
numa porta que destranque
 

poeira de casa sem teto
de janela em ripa nobre

se a tramela é enferrujada
e a sombra presume um corpo
não naufraga com seu medo
quem mergulha no mar morto



 

401




Ensimesmada
ROGERIO SANTOS

dentro de todo querer
tem asas de anjo de guarda
tudo que pede um viver
bem livre de amarra e farda
tudo que sei de aprender
é espalhar que não sei nada
só sinto que faço valer
todo amor na minha estrada

só sinto que faço valer
parede de casa caiada
tudo que sei de aprender
não mora num conto de fada
tudo que pede um viver
é poesia enamorada
dentro de todo querer
tem a noite e a madrugada

dentro de todo querer
tem viola enluarada
tudo que pede um viver
tem um som de passarada
tudo que sei de aprender
é inflar a voz calada
só sinto que faço valer
quando o canto vira enxada

só sinto que faço valer
se a chuva é de enxurrada
tudo que sei de aprender
vem na última tragada
tudo que pede um viver
é paixão redesenhada
dentro de todo querer
vive a flor ensimesmada


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