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27 outubro 2007

129



psicografia
ROGERIO SANTOS


não carregues peso morto

pelo tiro à queima roupa

sem ele eu jamais saberia

que o silêncio tem o gosto
de uma boa anestesia

24 outubro 2007

128



Beijo-Torpedo
Poema: ROGERIO SANTOS
Música: TONY PITUCO FREITAS

Ouça Aqui - Voz e Violão - Tony Pituco Freitas

num dia nublado desses
te mando um beijo-torpedo
e explodo tua boca carmim
o susto será tão grande
que ficarás assim...assim...

enquanto pensas no fato
no zapt da situação
me cravo no teu coração
tatuo minha boca em tua nuca
e será tarde pro fim...pro fim

127



Gol ou Google ?
ROGERIO SANTOS

quando se sai a caça
de nova palavra
aquela, no emaranhado
que fecha o sentido
que cria o atalho
que corta o caminho
que estala as idéias
que geralmente cozinham
na fuça, na cara
mascando batalha
no nó do novelo
no cortante da linha
promessa de vôo perene
quando se pega de jeito
a palavra engendrada
aí chega a hora
de ir pro abraço
temperar a salada
de dar a garfada
de meter a boca
de matar a fome
de gritar bem fundo
do fundo da alma
da linha de fundo
da bola cruzada
na entrada da área
o pique, a chegada
é gooooooooooool
(ou google ?)

19 outubro 2007

126



Preciosa
ROGERIO SANTOS

teus olhos vitrines
trines, trines, trines
teus olhos vitrines
multicolorido todo
defletor rubi
mó esmeralda
botica jaboticaba
trine, vitrine, trine
vitrine, trine, vitrine
vitrificado toldo
mosáico modelo
prosa poética
vivanexa vitrine
farol turmalina
curvilínea anca
avança dégradé
viril vitrografia
su-bli-me

10 outubro 2007

125


( O beijo: Gustav Klimt )

Beijo Perdido
ROGERIO SANTOS

um beijo em silêncio
invade a noite carioca
enquanto uma bala perdida
busca um alvo adormecido
o sol que escorre da flor
na síntese do alimento
no instante derradeiro
o beijo busca um abrigo
no porta-retrato da estante
paira um recorte argumento
é como se nesse silêncio
ainda portasse um sorriso
o beijo jogado no tempo
explode no meio da boca
para a bala contratempo
de movimento tenente
a bala em fração de segundos
coadjuvante em contracena
se cala atingindo a parede

29 setembro 2007

124


( De 01 à 06 de Outubro, vou curtir esse congresso... Também sou filho de Deus e de Baco...rs )

A festa de Bacca
ROGERIO SANTOS

na verve do vinho
há tinta de sangue
que jorra no verso

na taça onímoda
o brinde-cidade
da festa de Bacca

sagrada vindima
colheita bendita
tinteiro de Baco

enfeita a fruteira
centelha poema
de átomo ato

( Para o poeta Ademir Bacca )

09 setembro 2007

123



Reforma
ROGERIO SANTOS

em casa sou asa
em caso que eleja
peleja e litígio
inseto de frutas
quintal de palavras
sou lavra de larvas
minhocas, lampejos
prego percevejos
martelo de letras
ampulheta, paráfrase
parafuso difuso
alicate abacate
sabor enjambrado
por sal e açucar
extraio das sobras
de sombras profusas
a seiva do novo
reciclo o telhado
espatifo as vigas
e me recolho lenha

07 setembro 2007

122



Na tua porta
ROGERIO SANTOS

tudo é mistério
nesse teu jeito
sempre deflete
tudo que penso
abafa um grito
nos quatro cantos
não deixa frestas
na tua porta
nem há escada
para a sacada
nem um caminho
para os teus olhos
de tua língua
nas madrugadas
de quando falo
aos quatro ventos
do meu amor
trocado em versos
é como fosse
sangrar de morte
em toda língua
que não falamos
que não beijamos
por todo lado
ensandecido
quarto de lua
que já não tenho
lado de dentro
evaporado
por todo poro
por onde choro
ejaculado

01 setembro 2007

Folha de Cima Comemora 2 anos !



31/08/2005

essa data merece um brinde

dois anos depositando palavras
numa casa construida
para minha desorganização poética

121



Braçado
ROGERIO SANTOS

trago dentro de mim
um horto
onde cultivo minhas flores
onde colho meus próprios frutos
onde ouço o canto dos pássaros
onde caminho nos finais de tarde
onde transito pela seiva de acordes
entre tantas e generosas árvores
que abrigam com boas sombras
as borbulhas úmidas do chão de terra
onde o tempo deposita cada folha
num abraço outonal afetivo
no ciclo das quatro estações

alheio aos alardes acachapantes
dos que propagam flores de plástico
emblemático e precioso resplendor
na contramão da nespereira florida

22 agosto 2007

120



Dormente
ROGERIO SANTOS

avante
colcha-de-retalhos
no leito do trilho
no chão da calçada
no vão da mortalha
na cegueira branca
no dom da preguiça
na beira da praia
num ponto esquecido
tira transversal
logotipo adiante
o dormente

16 agosto 2007

119



Elegância
ROGERIO SANTOS

a elegância
vai muito além
da aparência

apresenta toques florais,
amadeirados
imunes a percepção
de qualquer olfato

brilhos vitrais
multicoloridos e invisíveis
nuances e tons
com uma dose prima
de sinceridade

a elegância é um conjunto
e toca nota por nota
uma doce melodia
até invadir todo espaço
e por para bailar os sentidos

13 agosto 2007

118



Incontinente
ROGERIO SANTOS

travo uma luta diária
com a poesia:
- porque teima
em transbordar todo dia?

minha cabeça-de-vento
persiste em içar velas
não dando espaço à calmaria

117



Jardim de Poesia
ROGERIO SANTOS
( para Andréa Motta )

quando
um
cataclismo
encontra
um
jardim
de
poesia,
desvia.

10 agosto 2007

116



Meio-Fio
ROGERIO SANTOS

Asfalto
A água bate forte
Busca o fundo do vale
Desce ladeira
Bueiro entupido
Uma criança brinca na corredeira
Com barquinho de papel

A água não escolhe caminhos
Arrasta o barquinho
Arrasta a criança
Cruel geografia
Da vida por um fio

Da janela do edifício
Uma família acompanha
Arrasta os olhos
Não pode fazer muita coisa
Uma lágrima no ar

Sirenes e luzes
Aprontam a luta
Na boca da noite
Pressentindo a escuridão
A cidade grita
Atrai carniceiros

Entre nuvens indecisas
Lamúrias, lamentos
O tempo melhora
Mas não para todos

O rio arrasta uma vida
Triste canto do tiê

27 julho 2007

115



Santa Clara
ROGERIO SANTOS

abençoai, Santa Clara
os olhos de quem repara
nos tantos sóis que carregas
no prisma das gotas d´água

quando repousa nos seixos
quasar de rara escala
um mantra de percussão
ametista e diamante

por cada conta do terço
a luz resplandece na aura
no gelo da ducha vertente
mergulho meu sétimo chakra

no compasso desse encontro
corredeira inusitada
deposita sedimentos
na trilha da Pedra Selada

por isso sou teu devoto
e deixo promessa paga
um poema verdadeiro
pelo caminho das águas

23 julho 2007

114



Pecado Original
(A verdadeira Peleja de Adão)
ROGERIO SANTOS

enquanto Adão
mordia a maça
a cobra malandra
espreitava a aranha
doidinha por rango
naqueles confins
sem gato nem lebre
urubu vira frango

Adão dolorido
aleijão de costela
depois da dentada
pulou da galhada
mirou pelo guizo
de corno aprumado
e o forrobodó
foi aquiprocado

sem arma de fogo
que isso não tinha
na força das mãos
vergou a danada
mostrou para o bicho
o que era peçonha
que em terra de macho
buliu vai pro tacho

deu nó na tinhosa
assim diz o causo
falado e corrido
matou foi de fome
Adão foi pra roça
por causa da cobra
diz velho ditado
que pouco me engana

a aranha faceira
tão cheia de pernas
bichinho ordinário
caiu nesse mundo
finou-se amarrada
a cobra teúda
e Adão se perdeu
foi atrás da peluda

17 julho 2007

113


Areado
ROGERIO SANTOS

Todos os dias
Sentinela do sol
Abria as janelas
Rotina de rito
Respiração

Cabelos molhados
Captava música
Centelha de vento
Explosão de luzes
Respiração

Morava no todo
No tempo pairava
Fazendo-se teto
Erguendo-se fruto
Sonhando-se chão

Todos os dias
Pés de semente
Banhava-se sempre
De areia, onda
E contemplação



15 julho 2007

112



Fato
ROGERIO SANTOS

saudade
é questão de profundidade
para mergulhar fundo nessa questão
recomenda-se escafandro

14 julho 2007

111



Deriva
ROGERIO SANTOS

Na noite densa
Nem sinal
De terra firme
O mar
O desespero
Em cada onda
Ultrapassada
Energia perdida
Inércia renovada
Direção qualquer
Imaginário farol
Aponta o rumo
Do nada

06 julho 2007

110




Divagar e Sempre
ROGERIO SANTOS

o elevador
que atende
à todos
passou
por aqui
e estava
lotado

subindo

pelo sim
pelo não

vou descendo
bem devagar

mas pela escada

04 julho 2007

109


(Passarada-Amâncio d'Alpoim Miranda Guedes)
voz
ROGERIO SANTOS

em vôo particular
a voz de quem canta
permeia a grandeza do pássaro

desapego e generosidade
encontra uma porta de entrada
invade a alma ao chegar

faz mansamente seu ninho
e vive cumprindo o destino
de acordar as manhãs

30 junho 2007

108



H2O
ROGERIO SANTOS

bebo-te em demasia
num gole violento
sedento
na ressaca do dia

escorres
pelo canto da boca
hidratas a garganta
em quase asfixia

estancas o tempo
unguento
mareias o leito
num brinde à orgia

não cabe ferrolho
alimento
antídoto catavento
por detrás da gelosia

27 junho 2007

107


Onda
ROGERIO SANTOS

para quem sabe surfar
no ar
o som é mar em ondas infinitas

25 junho 2007

106



Dança de Inverno
ROGERIO SANTOS

não cabe drama
na rama silvestre
na nova estação
a vida prossegue
linha férrea, translação
sintonia no dial
a carregar a música
da folha que viaja
no sopro do inverno
e cumpre destino
de chegar ao chão

105



Escorpião
ROGERIO SANTOS

no mar seco do deserto
um rastro de peçonha na areia
carrega vital teimosia
qual traço na palma da mão
sob o signo de escorpião

20 junho 2007

104



Prisma
Música: Floriano Villaça
Letra: Rogerio Santos

tece o céu quando escurece
pomos matizes na noite
tão azuis as constelações
turmalinas lapidadas
ajeitando a madrugada
para o olhar da minha amada

quando o azul bate nos olhos
e o amor dentro da alma
deixam prisma de arco-íris
simbiose delicada
joga luz por toda estrada
para o olhar da minha amada

e se em plena madrugada
no silêncio desse encontro
guarda o brilho do desejo
deixa trilha pontilhada
feito cauda de cometa

meu olhar segue esse rastro
através da longa estrada
corre estrela por estrela
até virar madrugada
na manhã da minha amada

e se em plena madrugada
através da longa estrada
guarda o brilho do desejo
até virar madrugada
feito cauda de cometa

meu olhar segue esse rastro
no silêncio desse encontro
corre estrela por estrela
deixa trilha pontilhada
na manhã da minha amada



18 junho 2007

103



Embate Gastronômico
ROGERIO SANTOS

Tenho um amigo vegetariano
Vejam vocês que aventura diferente
Logo comigo, um cara suburbano
Que sempre soube onde por os dentes

Me convidou para uma feijoada
Em sua casa lá na Vila Madalena
Eu tava duro e todo endividado
Sem pixo prá passagem eu vendi a antena

O gente fina prometeu-me emprego
Uma cutruca lá de balconista
Eu fui armado de pente Flamingo
E de Gomex com panca de artista

Experiência tenho de açougueiro
Matei cachorro a grito, vendi churrasquinho
Cheguei bem cedo com o meu currículo
Um olho no emprego e outro no petisco

Como era fraca aquela caipirinha
E o lero-lero foi só aumentando
O meu estomago não é de ferro
E minha fome me contrariando

Me senti em convenção de escoteiro
Achei estranho aquele lance todo
Topava um trampo até de coveiro
Que pelo menos eu tava almoçando

Mas foi um choque aquele acepipe
Com cara de torresmo mas com cheiro estranho
Num pururuca e nem tem os pêlo
Saquei a fita que tava rolando

Me expricaro que era de outro níver
Que era fino, coisa de muderno
Prá ser sincero nunca vi aquilo
Nêgo na fejuca envergando terno

O meu esôfago tava fechando
Sai dos trilhos, cheguei na panela
Foi quando vi que a carne de porco
Parecia esponja de lavar tigela

Em feijoada vegetariana
Tofu torresmo e tofú tô mesmo
Eu nunca vi porco feito de soja
E minha fome continua a esmo

14 junho 2007

102



ROGERIO SANTOS

escavado em tronco forte
de madeira nobre,
um cê,
firmou morada
no meu verso

quem vê aquela canoa
singrando mares
cortando luares
nem imagina
que é feita de resto

23 maio 2007

101



Compensado
ROGERIO SANTOS

para alguns sou uma porta
mas sempre mantenho a postura
as vezes me abro demais
tenho ferrugem nas dobradiças
mas é comum que me feche
quando é preciso me tranco
e fico feliz quando lembram
de uma demão de verniz
um mimo que deixa refeita
minha autêntica cara-de-pau