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13 agosto 2007

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Incontinente
ROGERIO SANTOS

travo uma luta diária
com a poesia:
- porque teima
em transbordar todo dia?

minha cabeça-de-vento
persiste em içar velas
não dando espaço à calmaria

4 comentários:

CH disse...

Acredito piamente que o olhar do poeta transcende a superficialidade das coisas e dos momentos.
Nesse mister, a idéia germina e anseia por tomar corpo. Por isso é que somos portadores de efervescências.
Um forte abraço, Rogério.
Carlos

Analuka disse...

Caí aqui através do "Almofariz" ...e que grata surpresa!... A imagem que escolheste conjuga-se de modo feliz à tua escrita pulsante, pois a árvore-cabeça parece germinar e florescer-frutificar, incansavelmente, transbordando seiva vital, tanto quanto a alma do poeta apaixonado, em seu afã!
Aproveitarei para linkar teu blog, está bem?
Abraços alados,
Ana Luisa.

rogerio santos disse...

Análise de Maria José Limeira na lista Oficina Literária:

INCONTINENTE
Um texto de Rogério Santos

(Análise crítica)

Maria José Limeira

“Incontinente”, de Rogério Santos, é mais um daqueles
textos que enfocam o fazer poético, e o que a Poesia
provoca em seu autor. O poema abunda em metáforas,
como é de acontecer em todo texto poético que se
preze.
É um texto curto, em linguagem escorreita, sem
deslizes ortográficos.
Nem mesmo a “cabeça-de-vento”, muito usada na fala
popular, consegue prejudicar o todo deste poema lindo,
cujo título tem tudo a ver com o conteúdo do corpo da
matéria. Ao contrário! Deu-lhe até boa vida e grande
sentido!
Gostei muito.

(Maria José Limeira é escritora e doce jornalista
democrática de João Pessoa-PB).
............

rogerio santos disse...

Análise de Maria João na lista Oficina Literária:

Em poucos versos, Rogério Santos apresenta-nos o destino do poeta: viver em
permanente desassossego. Na primeira estrofe, o sujeito poético interroga-se
perante o combate diário que trava "com a poesia" ("... porque teima / ao
transbordar todo dia?") Na segunda estrofe, está bem patente a inquietação
do poeta, a sua "cabeça-de-vento" não lhe dá tréguas, não tem outro remédio
senão "içar velas".

Na verdade, a desejada (?) "calmaria" não está ao seu alcance. Ela foge da
poesia como o diabo da cruz.. O poeta não tem férias, não pode apaziguar o
mar agitado e tempestuoso em que navega, a sua vida é um barco sem rota
marcada, sem hora de partida e de chegada e nem o vento nem a maré o levam a
porto tranquilo, rotineiro, onde ele se possa limitar, apenas, a existir, a
ser mais um número das estatísticas, pois a sua "loucura" não o permite.
Para cúmulo, ele tem a difícil tarefa de transformar a palavra em "flor que
fura o asfalto"...

Com este desabafo, Rogério Santos levou-me até Miguel Torga, imortal poeta
que, um dia, sentiu necessidade de descansar, de ter umas férias de quatro
dias sem ler, escrever, pensar, sofrer, amar... E deitou-se "em cima duma
fraga" (...), com o "maldito livro de notas a cem quilómetros" dele!

Pois é... mas não só aqueles quatro dias foram " dias inúteis, vazios,
opacos, em banho-maria", como depois quis alcançar, na prosa e na poesia, "a
dignidade e a força descarnada das fragas, a pureza e a largueza dos
horizontes que delas se descortinam (...)".

Poeta "não tem jeito mesmo", não é verdade? E a luta começa "mal rompe a
manhã" e continua "nas ruas do sono", como disse Drummond, no belíssimo
poema "O lutador". Ele tem mesmo de "içar velas". Tanto pode navegar à
bolina, no mar da sua inquietação, como subir ao mastro.

Neste poema, Rogério Santos subiu ao mastro. Parabéns!

Maria João