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18 junho 2017

560



Cacos e Argila
ROGERIO SANTOS
(para Paulo Nunes e seu poema ALEPPO, BENTO RODRIGUES)

de cacos e argila
- o coração -
carrega uma vila

de alumbre e penumbra
- o coração - 
ainda assombra

de natural teimosia
- o coração - 
ainda bomba

onde a morte persiste
- o coração -
é um dedo em riste





16 junho 2017

559


Istmo
ROGERIO SANTOS

era um tempo
de portas fechadas
e chaves escondidas

mas vi estrelas
que brilharam verdes
na noite do céu do Saara

o peito atravessado 
pela Cordilheira do Atlas

degelo
lágrimas de alegria e tristeza
inventando um oásis 

o silêncio que hoje me orbita
o barulho hoje me habita
tem olhos de tâmaras

o oceano que separa
é o mesmo que une

o istmo é o destino


15 junho 2017

558



O canto e a asa
Música: IAN FAQUINI
Letra: ROGERIO SANTOS

(I)
uirapuru 
vem valer esse teu cantar
adentro a densa mata

uirapuru
meu sofrer de fazer cortar
transborda a natureza

me conta como fez
para o Deus Tupã
te dar o canto e a asa

uirapuru
meu amor de doer
eu canto pra você 

(II)
uirapuru
diz a lenda, quem te avistar
tem por direito um desejo
pra reclamar

eu vim pra cá
pra me encantar
e vou trocar
com você de lugar

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13 junho 2017

557




Prego
ROGERIO SANTOS

na cabeça de um poeta
o poema é sempre à quilo
farinha, água e forno
massa sovada em língua pátria

o imbróglio está no embrulho
inacessível por um lado
leque de possibilidades por outro

portanto, não crucifiquem o incauto

prego, é um simples pão com carne

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12 junho 2017

556



Cultivo
ROGERIO SANTOS

há quem saiba compreender um olhar
eu posso afirmar que não sei
mas se um olhar me atinge
também não fujo
com toda paciência do mundo
colho e dele me alimento

depois de saciado
semeio palavras e cultivo sonhos

a beleza não é afeita a compreensões

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05 junho 2017

555




Zigue-zague
ROGERIO SANTOS

você não é você
mas é você que eu vejo
encaro o zigue-zague
dos meus medos
rabisco a folha branca
que te entrego
e digo o que te digo
com meus gestos
você não é você
mas é você que eu quero

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