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18 dezembro 2006

77



Monstro do Cobertor
ROGERIO SANTOS
( canção para ninar Letícia e Mariana )

lá na casa vizinha
mora um monstro que não existe
é o monstro do cobertor
( não existe, mais eu vi...)

dizem que esse monstro
apavora as criancinhas
com os seus dois superpoderes:

- ele toma a forma dos pés de quem quer
e atravessa as paredes.

14 dezembro 2006

76



Naufrágio
ROGERIO SANTOS

caem os céus, centelhas,
na cangalha, um corisco.
um susto corta o léu
e o batel num açoite.
na noite de Netuno,
clarão soturno, elegia.
agonia, adernagem,
fogem os deuses na proa.
hoje loa, cantiga,
há quem diga, miragem.

09 dezembro 2006

75




Ervas Aromáticas
ROGERIO SANTOS

você que vai e vem no vento
e deixa esse cheiro no ar
arruda, guiné, manjerona

faz do meu reino pimenta
arrisca, apura especiaria,
coentro, noz moscada, açafrão,

faz de conta que sou uma fonte
e você passarinho a voar
camomila, alfazema, hortelã

busca o aconchego do ninho
ou mate sua sede por cá
gengibre, salsão, rosmaninho

mas se o rumo do vento virar
e o destino alterar o paladar
pétalas de rosa, anis estrelado

um aroma reinará nas madrugadas
nas folhas que orvalho molhar
sálvia, jasmim, erva doce

se um acalanto ecoar de mansinho
bem de mansinho, num quase murmurar

é o som do meu pranto no orvalhar
regando com calma um vasinho de ervas

06 dezembro 2006

74




A Chave
ROGERIO SANTOS


afago palavras como diamantes
com todo zelo, delicadeza e carinho
desmonto sílabas, vogais, consoantes
anti-sintaxe de mil horizontes
quebra-cabeça de sutil montagem
remonto frases, risco pergaminhos
com todo zelo, delicadeza e coragem
descubro enfim qual o seu password

04 dezembro 2006

73




Ano Novo
ROGERIO SANTOS

Quero a sensação que vem do cheiro de mato
Vento de dezembro traz um cheiro de mar
Lua, travesseiro das estrelas, de quem sonhar

Esquecer do tempo na distância da estrada
Quero me perder num ponto do litoral
Carregar o corpo e a alma no sabor desse sal

Ser o todo e mais além
Ser um porto para o bem
Saber navegar no som
Na cor das ondas buscar

Um tijolo dessa casa
Uma fruta desse quintal
O prazer de ter nos olhos
Todo brilho que puder encontrar

Todo fim de ano faz brotar a viração
Soltos, astrolábios, astronaves pelas mãos
Entre sete ondas; festejar, meditação
Içar velas pelo corpo - catavento coração

Veja esse sol, quanta luz
Abre essa estrada toda azul
Dei um passo e fui
Como uma nuvem conduz
Megawatts na elevação

Busque-me pelo ar
Só sai prá voar

30 novembro 2006

72



(Atrelado e inspirado no "Koan" do Pituco)
ESPELHO DE FRENTE PRO ESPELHO

O QUE REFLETE?
REFLETE O QUÊ?
ESPELHO DE FRENTE PRO ESPELHO
( Tony Pituco Freitas )

Reflexão
ROGERIO SANTOS

Os olhos do pobre refletem o medo
Os olhos do rico, pardieiro
Os olhos da puta refletem desejo
Os olhos de quem paga, desapego
Os olhos do menino refletem desespero
Os olhos de quem passa, apelo
Os olhos do padre refletem bueiro
Os olhos de quem peca, dinheiro

Os olhos da moça refletem veneno
Os olhos do sacana, tempero
Os olhos da desgraça refletem desprezo
Os olhos do preconceito, guerreiro
Os olhos do cantor refletem apreço
Os olhos da platéia, recomeço
Os olhos do pai refletem tormento
Os olhos do filho, desalento

15 novembro 2006

09 novembro 2006

70


( "Sobre Luz e Retrato" de Diego Rinaldi )

Composição
ROGERIO SANTOS

são tantos
teus predicados
que de sujeito simples
passei a indeterminado

adjetivos escorrem
na tocaia da língua

trêmula trema trama
esse u que urdo
no exato espaço
entre um ponto final
e a próxima linha

por ora consoantes
deixo reticências
enquanto namoro
advérbios de tempo
lugar e intensidade

07 novembro 2006

69


(Foto: Rogerio Santos )

Mar de Amor
Letra: Rogerio Santos
Música: Floriano Villaça


Na beira de um mar de amor
Melhor
é saber contemplar
Esquecer
a pressa e admirar
Melhor
que dizer é calar
Melhor
se perder na paisagem

Na beira de um mar de amor
É preciso ter coragem
O mar convida a viagem
Farol revela uma imagem
Morena,
com seu alguidar

Na beira de um mar de amor
Não
pedras nem rochedos
O mar acalmando os medos
Esconde bem seus segredos
Num convite a velejar

Na beira de um mar de amor
Depois
de passado algum tempo
As velas tremulam no vento
E o barco do sentimento
Prepara
sua cabotagem

Na beira de um mar de amor
A areia não gruda na pele
A saliva turva não repele
A espuma talvez revele
O gosto do sal a provar

Na beira de um mar de amor
Perigoso
é ser tragado
Por um olhar enamorado
sereia em seu reinado
Fazendo a pele enrugar

Na beira de um mar de amor
Sabor de fruta madura
Beleza
de rara candura
Água
bate até que fura
Lambendo o que era miragem

Na beira de um mar de amor
Há lenda de muito naufrágio
Quase
sempre o mesmo adágio
É pagar esse pedágio
Limite para mergulhar

Na beira de um mar de amor
A estória encontra o destino
O homem virando menino
Segue firme em desatino
Sem medo de se afogar

06 novembro 2006

68


(arquivo de família - Lagares da Beira - Portugal )
Matuto
ROGERIO SANTOS

quando me chamam poeta,
reluto:
(isso é coisa de gente letrada)

não domino
cancela, balança, escotilha
não determino
gerúndio, pronome, cedilha

em palavras cruzadas
embalo balaio confuso
apenas pressinto
um poema jorrando
e sei bem
que não passo de um puto

30 outubro 2006

67



Feira Livre
ROGERIO SANTOS

nas cores da feira
a vida encandeia
no verde abacate
limão espinafre
amarelo mamão
lima-da-pérsia
vermelho tomate
caqui coração

lugar aconchegante
para olhar jabuticaba
tão denso de sonho
azulado sorriso
a morar indeciso
no papel da maça

pastel e garapa
entoam cântico:
tchiiiiiiiiiiiiiiiii
tátátátátátátá


sinfônico desejo
ter a fome saciada
por meio arco-íris

28 outubro 2006

66




Quiromancia
ROGERIO SANTOS

nas linhas
da tua mão
o oráculo
do caminho

nos dedos
o destino
de cinco
sentidos

23 outubro 2006

65



Rumo ao mar
ROGERIO SANTOS

na
correnteza
da
mulher,
provocante
erosão,
enxurrada
de
poemas.

embarcado
nesse
leito,
passageiro
involuntário,
sou
madeira-sem-lei,
navegando
rumo
ao
mar

17 outubro 2006

64



Nação Piratininga
ROGERIO SANTOS
Tem Pirituba, Piqueri, tem Itaquá
Tem Jaguaré, tem Jaguara e Jaraguá
Tem Tremembé, Tucuruvi, tem Curuçá
Tem Sapopemba e Paranapiacaba.

Tem Mandaqui, Itaquera, Jaçanã
Tem Itaim, Cangaíba e Butantã
Tem Jabaquara, tem Moema e Sacomã
Ibirapuera, Tatuapé, Mairiporã
Carapicuíba, Itupeva e Barueri
Tem Utinga, tem Itu, Itapevi
Tem Cabreúva, Jarinu, Jacareí
Tem Taubaté, Itatiba, Tatuí
Tem Bertioga, Ubatuba e Caraguá
Tem Peruíbe, tem Iguape e Mongaguá
Itanhaém, Picinguaba e Itariri
Tem Icapara, Maranduba e Guarujá

Com Tietê, Tamanduateí e Cabuçu
Pirajuçara, Itororó, Baquirivu
Jurubatuba, Aricanduva e Pacaembú
Tem Cambuci, Ipiranga, Anhangabaú

06 outubro 2006

63


Seis e pouco
LETRA:ROGERIO SANTOS
MÚSICA: TONY "PITUCO" FREITAS

OUÇA AQUI

seis e pouco da manhã
de um dia normal
o rádio-relógio
dispara o sinal
semínimamente

paulistano
sabe bem
do que estou falando
punhal sonoro
atingindo o sonho
pelas costas

seis e pouco da manhã
desse dia comum
reclamando minutos
roubados de sono
traço planos
(de)cadentes
e sibílo decassílabo

depois do café
"Inês é morta"
voando solto
pela aorta

29 setembro 2006

62


Soul da Cidade
LETRA: ROGERIO SANTOS
MÚSICA: TONY "PITUCO" FREITAS
Ouça Aqui

Bicho, sou da cidade!
Sou mais um na correria
Sempre feliz
Sempre insatisfeito
Desequilibrado
Entre chuva e sol
Entre o necessário
E o essencial

Sou flex-power
Álcool, estricnina
Sinvastatina
Chopp, omeprazol
Soul da cidade bicho !

Bicho, sou da cidade!
Num feriado
É sempre carnaval
Acordo as três
Para fugir do trânsito
Então me jogo
Para o litoral
Chego à praia bem cedinho
Antes que se acabe
Todo cantinho
Para o guarda-sol
Copertone, caipirinha
Caladril e coisa e tal
Soul da cidade, bicho!

Soul da cidade
Ô bicho, eu sou da cidade
Da cidade de São Paulo

27 setembro 2006

61



Enterprise
( Dedicado ao poeta Carlos Assis em dez/04 )

Letra: Rogerio Santos
Música, violão e voz: Tony "Pituco" Freitas
Ouça aqui

pelos meandros
da fria cidade
no mais seleto
anonimato
feito uma nave
roteiro inexato
segue Assis
na megacidade

segue Carlos
segue assim
segue assado

olha pro céu
não vê as estrelas
usa caneta
para descrevê-las
trabalha de dia
transpira poesia
segue Assis
na sagacidade

segue Carlos
segue assim
segue assado

vende o trabalho
ganha seu sustento
faz sem lamento
poesialimento
precisa do simples
no seu dia-a-dia
a sua verdade
não negocia

cegue Carlos
cegue assim
cegue assado

olha p´ro céu
e não vê a lua
mas não precisa
já é aluado
vê tudo embaçado
e com poesia
por entre os meandros
da monotonia

segue Carlos
cegue assim
cegue assado

vai ver a lua
vai ver as estrelas
vai ver o universos
de cards encantados
ninguém sabe como
a caminho do cosmos
pela janela
de sua enterprise

segue Carlos
segue agora
embarcado

22 setembro 2006

60




Contemplanar
ROGERIO SANTOS

enxergo
o
todo
nos
pedaços
de
ti
que
achei
pelo
caminho

inadvertidos
olhares
vertendo
no
sal
no
vento
nos
raios
crepusculares

14 setembro 2006

59



Solicitude
ROGERIO SANTOS

pessoas tem um quê
de nave solitária
nas lembranças,
um tanque de combustível

surrado numa gôndola
de supermercado
palpita um gosto
de fruto tolhido

do canto da boca
brota um sorriso

mora num recanto
sereno da alma

um beijo estampado
em retrato antigo
corte transversal
no peito do tempo

cadeira de balanço
de cada indivíduo
a solidão esconde
açoite, mil faces

esquinas, olhares
lugares ambíguos

ao longe, na rua
o desconhecido

do canto da boca
brota um sorriso.

pessoas tem um quê
de nave solitária

11 setembro 2006

58



Estação da Luz
ROGERIO SANTOS

todos os dias
na estação da luz
num sobe e desce
um mar de gente
se traduz

na mesma ânsia
de andar
um passo a mais
de ir em frente
prá chegar
noutro lugar

por esse ciclo
de caminho
demarcado
no mesmo horário
o mesmo som
de ladainha

tampouco importa
em que estação
chega esse homem
pelos trilhos dessa vida
como gado confinado
no suor pelo tijolo
da subconstrução

só busca a luz
da primavera
na estação

só busca a luz
da primavera
na estação

02 setembro 2006

57



Carro Anfíbio
Letra:ROGERIO SANTOS
Música: TONY "PITUCO" FREITAS

Todo ano, no verão
A estória se repete
Na primeira chuva forte
São Paulo vira uma enchente

São pobres perdendo casas
Avenidas alagadas
Meninos nadando em poças
Dezenas de cenas ingratas

Aí nosso bom prefeito
Interrompe seu rodízio
E todo bom cidadão
Vai andar de carro anfíbio

Um esperto tecnocrata
Tem brilhante solução
Fazer desassoreamento
Construir um piscinão

E nem bem começam as obras
Surrupiam um milhão
E vão entupir os bueiros
Numa próxima eleição

Se o lixo é sempre o mesmo
Os insetos sem asinhas
Passeiam de helicóptero
Apreciando a tardinha

" O barquinho vai...
a tardinha cai..."

31 agosto 2006

56


( Postagem comemorativa de 1 ano do blog )

Aniversário
ROGERIO SANTOS

um
sonho
tem
ene
fatias
e
quanto
mais
se
divide
mais
cresce
e
alimenta

30 agosto 2006

55


Gim Tônica
ROGERIO SANTOS

por
entre
palavras
cítricas
desfio
meu
cinísmo

letras e
sílabas
dando a
tônica
para o
meu
gim

19 agosto 2006

54



Niterói
ROGERIO SANTOS

Contemplação
Pede equilíbrio
Navegação
Força de vento
No coração

Seguir a linha
Desse horizonte
Na própria mão
Nesse silêncio
Criar seu som

Água escondida
As vezes dói
Por toda lida
Ser negativo
Ser Niterói

Criando pontes
Pelo sentido
Pela aventura
Pelo sorriso
As vezes doí

Lançar olhares
Indecifráveis
Embarcações
Encouraçados
Por quem se foi

A moça impune
Solenemente
Vê pela frente
Um mar de sonhos
Por navegar

Esse horizonte
Tal como espelho
Tal como berço
Não nega amores
Braço-de-mar

13 agosto 2006

53




Visconde de Mauá
ROGERIO SANTOS

Via Láctea.
Iridescente
Sorriso
Cadente
Onde
Navego
Discreto
Existir.

Delírio
Etéreo.

Mandala
Abstrata.
Universo
Abissal.

10 agosto 2006

52


( Musicado em 17/08/06 )
Ouça aqui na voz do Pituco

Torresmo na Madruga
LETRA: ROGERIO SANTOS
MÚSICA: TONY "PITUCO" FREITAS

Andando em Santa Cecília
Entre
os bordéis e a Santa Casa
Deu coceira na virilha
Só de lembrar onde estava

O metrô tava fechado
E caminhar até a República
Pra pegar o Morro Grande
Desviando dessa fauna?

Madrugada paulistana
Nevoeiro de outono
A fome que me abraçava
Aumentava o abandono

Lembrei do pernil do Estadão
Perto da Maria Paula
Mas era dura a missão
E meu dinheiro não dava

Lembrei do Café São Paulo
Onde às vezes encho a lata
Discutindo futebol
Com amigos de bravata

Mas essa é uma outra estória
E o Café tava encerrado
Mas por sorte ou por azar
Havia o boteco ao lado

Esse sempre nos salvara
Nas madrugadas perdidas
Quando o Café nos faltava
O velho "pé-sujo" acudia

Ali eu era de casa
Ali eu pagava fiado
Com ágio de trinta por cento
Mas era super bem tratado

Arrisquei um torresminho
Da mesma velha vitrine
Onde passou alguns dias
Aguardando o corajoso

Depois da pinga de trinta
E de trocar o meu chequinho
Acordei na enfermaria
Glicosando meu venoso

07 agosto 2006

51


( poema sobre trabalho de Mayra Azzi )

R.G.(ene)
ROGERIO SANTOS

o
azul
da
aura
crava
na
alma
a
rubrica

na
cor
que
pinta
a
primeira
impressão
é
que
fica

50


( A primeira dança - Maria Fernanda Filardi Ferreira )

Valsa Etérea
Letra: Rogerio Santos
Música: Floriano Villaça


Vem
Vamos dançar

Em serenata
Cada passo
Que criei
Em ti

Vem
Vamos dançar

Mais uma valsa
Nossa taça derrubei
Em desespero eu vi
No chão

Que tudo é fim

Cacos de Paixão
Vis

Mas recriei
Nossa
canção
Etérea
sensação
Dançamos num salão

Chão

Tolo
De girar
Vou cambaleando

Cada passo que vier
É valsa por ti

22 julho 2006

49


( Pré-parceria e homenagem ao amigo Pituco )
( Em 07/08/06 Pituco musicou esses versos - emocionante )
Ouça aqui na voz do Pituco

Breque do Guioza
Letra:ROGERIO SANTOS
Música: TONY "PITUCO" FREITAS

( Para Pituco Freitas )

Quem se mudou para o Japão
Não renega jalapeña
Essa bossa ficou massa
Spaghetti com pimenta
Na dose exata
( Olha o breque ! )

Tenho um amigo lá da Móoca
Que cansou de comer churro
Um dia pegou o metrô
Foi parar na Liberdade
Gostou tanto de guioza
Que zarpou dessa cidade:

- De minha vida paulistana
As vezes sinto saudade
Nas férias ia ao Playcenter
Andar de montanha russa

Hoje que mudei para Tokyo
Me equilibro em terremoto
Cansei de " la dolce vita"
Viciei no ajinomoto !!!
( breque )

- Olha o Chuuuuurrrro, Signore !

19 julho 2006

48


( poema sobre foto de Danilo Grimaldi )

Relicário
ROGERIO SANTOS

Não venha
lembrar
de gavetas
de mofo
umidade
ou bolor

jogou-se
um sorriso
no tempo
brilhante
de raro
valor

ferrugem
fissura
e tormento
dobraram
em nome
da cruz

persiste
o amor
barlavento
pois tudo
que é ouro
reluz



17 julho 2006

47




Corpo Cidade
ROGERIO SANTOS

a casa
é o coração
da gente
a rua
a primeira
artéria

depois tem
a avenida
e o refluxo
que agita
a vida
na colméia

os olhares
e os cílios
toldos
varandas
sacadas
secretas

o bairro
é o pulmão
os arrabaldes
são rins
fígado
e traquéia

o centro
é o cérebro
a zona industrial
estômago
e a comercial
sistema nervoso
e cefaleia

o corpo
se move
e avança
no espaço
cotidiano
de pura
matéria

16 julho 2006

46


( ajeitando a lua - maria fernanda filardi ferreira )

Observatório
ROGERIO SANTOS

Um dia essa lua cheia
Posou na minha janela
Não por nenhuma aposta
Mas por trilhar seu caminho

Tomei um chá de sumiço
Para abafar o meu uivo
Guardar mais esse elogio
E disfarçar meu desejo

Ninguém escutou um pio
No meio da madrugada
Em meio aos raios lunares
Levita uma tênue resposta

Do maravilhoso astro
Imaginários lugares
Determinado em seu rastro
Serenos raios de olhares

12 julho 2006

45


( poema sobre foto de João Kaarah )

Encanto do mar
ROGERIO SANTOS

o encanto do mar
mora no pano
de vela
costura de paus
cadafalso
em cada palmo
salgado de alma
velacho alto
velacho baixo
mastaréu de joanete

o encanto do mar
mora nas ondas
no vento
nos contos
de sereia
faróis e lua cheia
iara-albufeira
bujarrona
polaca
estai de traquete

o encanto do mar
mora no exílio
no milagre
dos peixes
na dor da partida
inerente
sobregávea
sobre grande
ampulheta
e torniquete

44


( poema sobre foto de João Kaarah )

Frente Fria
ROGERIO SANTOS

um avião risca o céu
rumo ao norte
entre olhares incapazes
de ler seu rastro

na luz crepuscular
círrus e saudade
tempo de mudança
estrondo e nebulosidade

quem parte
rompe o hemisfério
de horizontes findos

quem fica
parte à metade
cúmulus-nimbus


10 julho 2006

43


( letra para o tema " Sete de Ouros " de Marcelo Maita )

Sete de Ouros
ROGERIO SANTOS

( Compensa dizer
que temos um jogo prá viver )

Pelos rios dessa vida
Vi muito temporal
Sei com quantas canoas
- Sete de Paus

Nunca zombei da sorte
Quando ela me sorriu
Tive muitos amores
- Sete de Copas

Jogo com pouca carta
Mostro que sei blefar
Nunca fugi da briga
- Sete de Espadas

Na mesa do destino
Sempre joguei por ti
Fui garimpar um beijo
- Sete de Ouros

Todo trunfo
tem seu peso, amor
e nos convida
a aprender como jogar

Pelos rios dessa vida
Vi muito temporal
Sei com quantas canoas
- Sete de Paus

Nunca zombei da sorte
Quando ela me sorriu
Tive muitos amores
- Sete de Copas
Nunca fugi da briga
- Sete de Espadas

Na mesa do destino
Sempre joguei por ti
Fui garimpar um beijo
Comprei a boa
Acho que bati

06 julho 2006

42



Rodosentimento
ROGERIO SANTOS

coração pneu de carro
desvia dos sobressaltos
resiste derrapa na curva
machuca se cai no buraco
altivo se roda alinhado
é rei conduzindo vassalo
até que a morte os separe
até que termine furado

04 julho 2006

41



Mundinho
Rogerio Santos

fui menino de rua
não desses que vejo hoje
daqueles que se divertiam
com brincadeiras vadias

esconde-esconde, pega-pega
queimada, pipa e balão
tratorzinho-de-lata-de-óleo
futebol nos campinhos de chão

formava fila na escola
cantava o hino nacional
o da bandeira também
ao ser hasteada no mastro

canoa dos anos setenta
plena e cruel ditadura
tristeza, medo e tortura
nos braços da guerra-fria

fui menino de rua
daqueles que se divertiam
com brincadeiras vadias:
- era feliz e não sabia

28 junho 2006

40



Fotopoema
ROGERIO SANTOS

Guardo imagens
Impressas na alma

Multicoloridas
Preciosidades

Palavras
Num velho agadê

Recheado de saudades
Criptografadas


23 junho 2006

39



Textura
ROGERIO SANTOS
( Para Valéria Tarelho )

verão
nos
teus
versos
que
nunca
se
despe
da
própria
pele
a
veste

38


Conversa Ribeira
Música: ANDRÉA DOS GUIMARÃES
Letra: ROGERIO SANTOS

A melodia ecoa
trina o pássaro
tem cheiro de café
e bolo de fubá

Menino vem prá cá
é hora de banhar
arruma esse terreiro
que a noite vai chegar

O sino badalou
é hora de respeito
pensar na mãe do amor
no rumo desse vento

Na luz desse suor
que inunda o meu leito
mistura o sal do amor
com força de tormento

O cheiro no quintal
na chuva que bateu
na terra que molhou
o dia amanheceu

Menino vem prá cá
é hora de acordar
arruma tua cama
arranja esse bambá

O sino badalou
há missa na capela
rezar pro meu amor
voltar com alimento

Partiu na lua nova
no rumo desse vento
a lágrima derrama
na terra, o meu lamento

O cheiro no quintal
que hoje anda vazio
carrega o bem-me-quer
é pó no sal do amor

20 junho 2006

37



Lacuna
ROGERIO SANTOS

Na
flor-de-lis
da
farda
que
não
vesti
reside
perfume
voraz

no
fundo
dessa
gaveta
do
tempo
notas
que
aqui
jazz

16 junho 2006

36



Courvoisier
ROGERIO SANTOS

o
hálito
de
conhaque
contém
a
dose
certeira

o
gole
espessa
a
saliva
enquanto
acaricia
a
carne

o
cerne
absoluto
do
ser
-
a
chama
inexata
do
estar

os
verbos
seduzem
adjetivos
e
criam
a
fórmula
fugaz

alquimístas
secretos
de
odores
e
sabores
que
se
complementam
e
se
esvaem

12 junho 2006

35



Hai - Cais
Rogerio Santos


O beijo

A intimidade do beijo
Tem a força de um torpedo
Disparado com desejo

Constelação
Brilham estrelas:
- São os lindos olhos
da madrugada

Olfato
O bom perfume
Acende a chama
Espalha o lume



10 junho 2006

34



Cáucaso
ROGERIO SANTOS

mesmo
transpondo
montanhas
vencendo
terremotos
e cataclismos

mesmo
conhecendo
cada passo
que une
e separa
povos

mesmo
provando
o sabor do sal
do Mar Negro
do Cáspio
do Aral


jamais
trilharemos
caminhos
iguais
portanto
jamais
diferentes
caminhos

nunca
aceitando
outra língua
senão a que prova
nossa própria
saliva

06 junho 2006

33



Click!
ROGERIO SANTOS

céu azul celeste
sol oriente de outono
ar seco, brisa fresca
manhã de serôdio luar

o tempo não é de flores
mas sempre será primavera

jardim, varanda, janela

- violeta singular -

08 maio 2006

32


Foto de Sebastião dos Santos - Meu bisavô paterno
Herança
ROGERIO SANTOS

uma saudade não se traduz
numa imagem
mas sim pelas marcas carregadas
no sangue

05 maio 2006

31



Girândola
ROGERIO SANTOS

os mil mundos
que moram em mim
orbitam em sol
solfejam em si

são acordes
quando durmo
são sonares
quando aprumo

03 maio 2006

30


Foto: Casa dos Prados, colhida na página do ORKUT do compositor Flávio Henrique

Casa dos Prados
ROGERIO SANTOS

Quero uma casa
Com varandinha
Cheiro de mato
Pelas manhãs

Quero uma casa
Cheia de verde
Com primavera
Pelos quintais

Quero uma casa
Feita de sonho
De onde veja
Meus horizontes

Quero uma casa
Cheia de amigos
Que seja abrigo
Que seja ponte

Quero uma casa
Que cheire a bolo
Que tenha rede
Que eu sinta a chuva

Quero uma casa
Morada simples
Com muito alpiste
Prá passarada

Quero essa casa
Com tanto amor
Que mesmo mudo
Eu lhe diga tudo

26 abril 2006

29




Calafrio
ROGERIO SANTOS

Nas luzes
dos teus cabelos
moram finais
de tarde
de interminável
verão.

09 abril 2006

28



Registre-se
ROGERIO SANTOS

no tempo,
no vento,
a erosão.
nas asas da borboleta,
o alimento.
no relógio,
na ampulheta,
a estação.
na porta do guarda-roupa,
o giz é tinta a óleo
e persiste em ser espelho.