Visualizações

03 agosto 2017

564




Caetanear
ROGERIO SANTOS

um desejo à flor da pele
eu na tua pele
calmamente tatuando
frases pilhadas
das canções de Caetano
é amor, não há engano
e não importa
delimitar o plano

/

12 julho 2017

563




Châtelet
ROGERIO SANTOS

sopro um poema
na ilusão impossível
de navegar as águas do Sena
e flechar o coração
da musa distraída que flana
- linda e plena

/

10 julho 2017

562




Palavra Empenhada
ROGERIO SANTOS

no prego
deixo as palavras que me restaram

com o trocado
compro uma passagem de ida para pasárgada

...um dia eu volto e resgato
...faço um livro e distribuo de graça
...faço uma letra de canção e canto

deixar minha poesia para esses usurpadores?
...nem morto!

/

09 julho 2017

561






Rio Tietê
ROGERIO SANTOS

tem um rio que atravessa no meu peito
tem um rio que atravesso - não tem jeito
todo dia; e mais dia, menos dia; sem efeito
tem um rio que reclama por respeito

tem um rio que ainda nasce como sempre
tem um rio que remorre lentamente
tem um rio de silêncio que se move, rio de gente
tem um rio que apanha do afluente

tem um rio de safena de concreto
tem um rio onde peixe passa reto
tem um rio que o dinheiro fez esgoto, fez dejeto
é um rio que envergonha o que é correto

tem um rio, rio de culpa, rio de resto
tem um rio por quem choro nesse verso
virou rio de descaso, objeto predileto
dessa farsa que eles chamam de progresso

/

18 junho 2017

560



Cacos e Argila
ROGERIO SANTOS
(para Paulo Nunes e seu poema ALEPPO, BENTO RODRIGUES)

de cacos e argila
- o coração -
carrega uma vila

de alumbre e penumbra
- o coração - 
ainda assombra

de natural teimosia
- o coração - 
ainda bomba

onde a morte persiste
- o coração -
é um dedo em riste





16 junho 2017

559


Istmo
ROGERIO SANTOS

era um tempo
de portas fechadas
e chaves escondidas

mas vi estrelas
que brilharam verdes
na noite do céu do Saara

o peito atravessado 
pela Cordilheira do Atlas

degelo
lágrimas de alegria e tristeza
inventando um oásis 

o silêncio que hoje me orbita
o barulho hoje me habita
tem olhos de tâmaras

o oceano que separa
é o mesmo que une

o istmo é o destino


15 junho 2017

558



O canto e a asa
Música: IAN FAQUINI
Letra: ROGERIO SANTOS

(I)
uirapuru 
vem valer esse teu cantar
adentro a densa mata

uirapuru
meu sofrer de fazer cortar
transborda a natureza

me conta como fez
para o Deus Tupã
te dar o canto e a asa

uirapuru
meu amor de doer
eu canto pra você 

(II)
uirapuru
diz a lenda, quem te avistar
tem por direito um desejo
pra reclamar

eu vim pra cá
pra me encantar
e vou trocar
com você de lugar

/

13 junho 2017

557




Prego
ROGERIO SANTOS

na cabeça de um poeta
o poema é sempre à quilo
farinha, água e forno
massa sovada em língua pátria

o imbróglio está no embrulho
inacessível por um lado
leque de possibilidades por outro

portanto, não crucifiquem o incauto

prego, é um simples pão com carne

/

12 junho 2017

556



Cultivo
ROGERIO SANTOS

há quem saiba compreender um olhar
eu posso afirmar que não sei
mas se um olhar me atinge
também não fujo
com toda paciência do mundo
colho e dele me alimento

depois de saciado
semeio palavras e cultivo sonhos

a beleza não é afeita a compreensões

/

05 junho 2017

555




Zigue-zague
ROGERIO SANTOS

você não é você
mas é você que eu vejo
encaro o zigue-zague
dos meus medos
rabisco a folha branca
que te entrego
e digo o que te digo
com meus gestos
você não é você
mas é você que eu quero

/

13 novembro 2016

554




Quebra-Cabeça
ROGERIO SANTOS

a vida com você
merecia pairar no tempo.

e fosse num dia azul,
amanhecendo de leve,
com sol, planos mínimos,
e sonhos aleatórios.

um cheiro de café,
o canto dos pássaros,
e o barulho das ondas
rompendo a mansidão
da Ilha Comprida.

no momento exato daquela chuva,
o limão e seus desdobramentos.

a hora sagrada
da multiplicação dos peixes
e do tilintar dos copos
e das garrafas de vinho e cerveja.

o riso exagerado,
os melhores amigos,
e a preguiça na rede.

não cabe culpa,
até as plantas estão felizes.

a brisa leve
clamando o início da noite,
a visão das constelações
e um passeio
regado de lua cheia e amor.

as mãos dadas
e as linhas entrelaçadas.

um dia desses bem comuns
que começam despretensiosos
- e jamais terminam.

quando toda conversa
que pensamos jogar fora,
monta um quebra-cabeça
que vira poesia.

nesse dia tão perfeito,
até as louças são autolimpantes.

/

06 novembro 2016

553




Vértice
ROGERIO SANTOS

vértice
a linha da vida
encontra a linha do amor

vértice
o ponto mais alto do eco
do grito-canto-canção

vértice
o tato da planta do pé
no plano incerto do cocuruto

vértice
o topo da pirâmide
aponta a ponta do iceberg

vértice
a Terra do Fogo
congela no topo da América

vértice
a palavra certeira
no bico de um avião de papel

vértice
a verdade pontiaguda
quando verte-se, é poesia




/

30 outubro 2016

552




Primeira Pessoa
ROGERIO SANTOS

um fog encobre
a próxima palavra
um gole e lá se vai
o penúltimo neurônio

o tempo é impiedoso
e não amortiza a conta

o fogo queima
a madeira do alicerce
um político castra
a próxima criança

em nome de Deus
tudo vale a primeira pessoa

o pretérito imperfeito
o futuro do pretérito
o hoje escrito em telas
que sepultam canetas

em frente do que é meu
um poeta sem estatura
reclama o que era nosso

os dedos apontam sua face
as bocas metralham frases
discursos mais-que-perfeitos
elaborados em horário nobre

a vida suplica poesia coletiva
mas é reduzida ao individualismo
- pobre

31 agosto 2015

551



Jazz
ROGERIO SANTOS

poesia sem rima
é pra se pensar
a rima cisma
e cisca no olhar

poesia com rima
é coisa de ninar
encanto num silêncio
que paira no ar

assim são as linhas
as canções e as melodias
tudo do melhor que se faz

e as mesquinharias
pesadas mentiras
invejam a poesia, aqui jazz

/

22 agosto 2015

550



Frase
ROGERIO SANTOS

busco uma frase
para contemplar
que seja essência
viagem serena
preceda a fala
no centro da alma
abrigo e silêncio
no fundo do ar

aquela certeira
que pegue de jeito
que traga o vento
que eleve a nuvem
que faça a chuva
que seja a soma
da última conta
de um belo colar

somente uma frase
com cheiro de mato
que seja pergunta
que traga resposta
um gole de dúvida
que mude o mundo
que venha no peito
e me faça planar

asas da palavra
- eu quero voar...

08 agosto 2015

549



Elas (ou Lua Azul)
ROGERIO SANTOS
(Letra feita sob encomenda para um Xote muito bonito)

Sás morena vei de lá
Pra bagunçar com meu coração
Ai doutor, não tem remédio, não
escuto a flauta, o fole, e caio no salão

tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac
é nessa hora que sinto a coruja piar
- valei-me! ...deixo o xote me levar

a noite inteira, até de manhã
ai doutor, o meu remédio, então
é quando o sol se chega e “estrala” no salão

tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac
e nessa hora que sinto a coruja piar
- valei-me!

Zabumba no meu coração
Eu e elas assim a bailar
Se der um piripaque, seu doutor
É por amor que eu nasci pra morrer

Um triângulo nas mãos
Outra noite na beira do mar
No céu flutua a lua azul

Ai, doutor eu vou (5x)
Eu vou morrer de tanto amar

/

25 julho 2015

548





Flor de Amendoim
ROGERIO SANTOS

fiz do silêncio morada
do pensamento um jardim
meu olhar é uma varanda
com perfume de jasmim

quando a chuva vem eu tomo
choro a chuva que há em mim
e a tristeza faz que voa
feito flor de amendoim

minha janela é no teto
o tapete é gergelim
minha sala é um orquidário
na geladeira um pinguim

a vida é uma casa dessas
com paredes de xaxim
tem a porta sempre aberta
pra quem sabe dizer sim


/

19 julho 2015

547





Freguesia do Ó (2)
ROGERIO SANTOS

o silêncio da manhã
de um domingo de sol
é poesia no céu
da freguesia do ó

a cidade matou
a contemplação
e nos entupiu
de barulhos

mas o sino da igreja
de sons ancestrais
insiste em cobrar
quem se distrai

na sina dos edifícios
a geometria do olhar
um passo adiante
sem sair do lugar

na rua de baixo
ainda mora a menina
que arrasa o quarteirão
com seus "erres"

a cidade
manda mensagens
que não entendo bem

- sou mais do interior -

um cheiro de café
interrompe o despertar
adormeço e sigo
com última estrela que se vai

/

16 julho 2015

546





Brincadeira de Martim
ROGERIO SANTOS

Para amanhecer, você se foi
Foi adormecer no Ceará
Sente quando é noite por aqui

E o amanhecer é o despertar
É deixar o corpo flutuar
Solto pelo vento de Jeri

Prender luar e dar bandeira
Aprender a calar de brincadeira
Feito um martim, pescar estrelas
Ver o dia azular, de pé na areia

Quando anoitecer também me vou
Quero acontecer no Ceará
Sempre chega o dia de seguir

Quando entardecer feito abraçar
Como o sol se põe no mei-do-mar
Vento é som de flauta por aqui

Prender luar de brincadeira
Aprender a calar, de pé na areia
Feito um martim, pescar estrelas
Ver o dia azular e dar bandeira

/

24 junho 2015

545





Relevações
ROGERIO SANTOS

as palavras não tem peso

um lenço é âncora
uma bigorna voa
um pássaro chora

as palavras reclamam domadores

um dicionário amamenta
um jornal embrulha o peixe
e nada

quem se come
saliva pelos olhos
e mastiga pelos ouvidos

a boca é via de mão dupla

/

04 junho 2015

544



Sopa de Letrinhas
ROGERIO SANTOS

quem te isola, sonho meu?
quem te faz indivisível?
quem te ensina a entrar na dança
dos passos de Deus?

quem te espera seu?
quem te intima ou intimida?
quem te sopra as entrelinhas
que inventei no breu?

quem te dita a poesia?
quem te aguça o paladar?
é uma sopa de letrinhas
que tem tudo pra contar

cada dia, um dia menos
cada dia, um dia a mais
mas é hoje o outro dia
de escolher colher a paz

pois a vida é uma menina
que descobre o que é passar
e é num piscar de olhos
vai parar noutro lugar
/

14 maio 2015

543





Papo Cabeça
ROGERIO SANTOS

minha cabeça vai bem
equilibrada em cima do corpo
minha cabeça até que zen
estranha a lentidão com quem me movo
um corpo em nós e uma cabeça veloz
cabeça olímpica com pernas de Usain Bolt
as pernas em trote na cadência dos vinte volts
mas nada evidencia ruptura ou curto-circuito
tudo indica que seguem juntas até a morte
é um tradicional casamento por conveniência
com a cabeça amante da preguiça
e as pernas amantes da paciência

19 abril 2015

542





Curintia e Parmera
ROGERIO SANTOS

Domingo é dia de derby
E também de feijoada
Fui convidado pro jogo
E pra traçar essa danada
Respeito as agremiações
Mas tô de olho é na comida
Depois que rolar a partida
Vencido e não derrotado
Arrotarei feito um porco
Tal fosse a finada iguaria
Farei soltar meus rojões
Como só um gambá o faria
E a culpa será dos feijões
Para os quais peço expulsão
E apelo à arbitragem:
Se a latrina é o campo de jogo
Que não haja impedimento
Que o final seja o bom clássico
E não prevaleça o entrave
Que quando a bomba sair
O tiro viaje certeiro
E a "merda" não bata na trave

09 abril 2015

541



Que Chico não veja
ROGERIO SANTOS

aquela moça
de adorno poético
cravado na pele
esfinge na boca
lascívia e olor

aquela moça
de distância confusa
entre os pés e a nuca
entre o não e o nunca
entre o já e o até

aquela moça
de relógio invisível
na névoa fria
com choro de flauta
com toque de flor

aquela moça
de cepa sublime
de olhar terra roxa
compassos certeiros
ataques espertos

aquela moça
tem nela poesia
que dá uma canção
(que Chico não veja
que entorna no chão)

/

05 abril 2015

540



Via Crucis
ROGERIO SANTOS

o poema é meu calvário
é onde me entrego à cruz
do escasso vocabulário

cada palavra é um prego
meu sudário é um dicionário


04 abril 2015

539




Pardo
ROGERIO SANTOS

meu primeiro poema
escrevi num caderno
encapado com papel pardo

era um poema infantil
como o coração de quase todo brasileiro
que carrega poesia no sangue

não era europeu
não era índio
não era negro

lembro que era humano
quando o olhar procura a pele

e era europeu
e era índio
e era negro

e era bem brasileiro

e era judeu
e era árabe
e era também oriental

a cor da pele sob os olhos

que eram verdes
que eram azuis
que eram castanhos
que eram negros

que eram redondos
que eram mestiços
que eram amendoados
que eram puxados

e, o que contava
era a pele sob os olhares
onde se suporta cores
onde o arco é um outro barco

e eram os olhos
do coração de um brasileiro
que marejavam

como tantos
um menino poeta
e sua visão

sob um olhar
de farol

de pele parda

/

02 abril 2015

538



Tríade
ROGERIO SANTOS

meu sim...
meu não...
sempre vestem reticências
são de triangulação
amantes endiabrados
do talvez...

31 março 2015

537



Lugar Movimento
ROGERIO SANTOS

hoje eu venho pra cantar
a poesia do meu lugar
meu lugar é o movimento
quando a voz que vai no vento
feito um voo de semente
é o amor que eleva a gente

27 março 2015

536



Pensata
ROGERIO SANTOS

quando a luz é poética
não há treva
não há túnel que se atreva

19 março 2015

535



Pensata

Galileu descobriu que a Terra era redonda
Hoje é fácil deduzir o quanto está ficando cada dia mais chata