Visualizações

16 outubro 2008

191



Poente
ROGERIO SANTOS
(para Willian das Neves)

partiu
como quem disse adeus
com aceno no olhar
e foi
como peixe de prata
lastro de iemanjá
deixou
claro rastro de luz
e um copo no bar
poente
como lua de prata
em poema de mar

quem faz
navegar a saudade
que aportou nesse cais?
quem vai
marejar amiúde
quando for caminhar?
um samba
no silêncio da tarde
veio me recordar
um nó
guarda o barco amarrado
nesse braço de mar

01 outubro 2008

190



Pontual
ROGERIO SANTOS


quase todo tempo quando me evaporo
ardo pelos poros que transpiram parte
parte pelo tempo traço do que adoro
corte em linha reta métrica metade


e quem fez do tempo frágil fragmento
numa linha reta já virou saudade
marcas diminutas anos ou segundos
tudo vira ponto quando cedo ou tarde


quando o mundo gira traz a noite e o dia
traz a alegria, a fome, o sentimento
deixa a linha reta escanchada no vento
a soma de sonhos que chamamos tempo

17 setembro 2008

189



Circular Avenidas
ROGERIO SANTOS

a patroa
chamou minha sogra
pro jantar
(de novo?)

a inxirida da véia
tratou de pentelhar
(telefone à cobrar)

- imprestável !...
...qual ônibus
tenho que tomar?
(eu mudei de barraco)

naquele instante
foi quando a idéia me ocorreu:
(hoje eu vou me livrar)

- pega o Avenidas
e vai até o ponto final
(acho que vai demorar)

já vão três dias
e ninguém mais ousa perguntar
(acertei no milhar!)

a jararaca,
virou balaústre do busão
(ligação à cobrar...)

no banco dos bôbos
que nem um boneco "michelin"
(ligação à cobrar!)

- caiu meus dentes
mas não há um meio
de chegar...
(quáquáráquáquáquá)

toma uma sopa
e espera chegar
o ponto final
(ou desce no Araça!)

eu agradeço
em preces a CMTC
(Deus há de abençoar)

pelo Avenidas
que fez minha sogra
circular

13 setembro 2008

188


(Flores de Maria Helena: Aquarela de Sonia Madruga)

Porquanto
ROGERIO SANTOS

por dentro alameda
por fora sou crua
sou tensa procura
por fora sou fina
senhora, sou fúria
por dentro sou nua
que atento verias
por dentro sou densa
sou faca, serpente
por fora tormenta
fulgura aparente
por dia sou muitas
por conta sou ninfa
sou Vênus ardente
decerto sou santa
picante, inocente
ditado dileto:
- "por hora sou tua"
com carta na manga
pitomba, pitanga
aguardente, elegia
por certo lerias
tivesses a lente
meu fundo de olho
meu fundo de alma
por certo lerias
na linha aparente
da mão espalmada
do braço de mar
porquanto, portanto
porvir evidente

saber do que prende
o lume e a vela
o sismo e a sina
por dentro verias

as veias abertas
palavras colhidas
em tom de aquarela

187


(Jericoacoara, a praia que inspirou a letra)

Rogerio Santos - Beira Mar


Beira Mar
Letra: ROGERIO SANTOS
Música: ROGERIO SANTOS E FLORIANO VILLAÇA

o calor na areia
chinelo de correia
a duna que dá canseira
no dia da beira mar

o cheiro da caldeirada
uma cerveja gelada
o paladar da namorada
na noite da beira mar

o sonho de mil viagens
vislumbre de mil miragens
preguiça de toda tarde
no dia da beira mar

a lua entre o coqueiro
a brisa lambe o cabelo
a prosa pelo passeio
na noite da beira mar

o artesão na feira
tem renda, rede, peneira
o peixe na frigideira
no dia da beira mar

o jogo da capoeira
cantoria na fogueira
o rasta-pé na ribeira
na noite da beira mar

o silêncio, o encanto
o sossego, o descanso
da vida na beira mar

31 agosto 2008

186 (3° Aniversàrio do blog)


(foto: Rogerio Santos)
(3° aniversário do folha de cima)

In Cité
ROGERIO SANTOS

há poesia
em cada quadro
em cada esquina
em cada estação

a cidade não traduz
minhas palavras
mas reflete suas luzes
no meu olhar desconstruido

em cada estação
em cada esquina
em cada quadro
a poesia

e a cidade enamora
o olhar de quem passeia
os pés de quem caminha
e permeia as horas do dia

e quando aflora a noite
nossos passos tatuados
na porta de setembro

espreita primavera
em doze meridianos
do meu globo ocular

19 agosto 2008

185



Dorival (Estrela do Mar)
ROGERIO SANTOS

segue teu destino
cantador do mar
segue teu destino
capitão de areia

peço tua benção
vento e céu azul

deixa em nossos olhos
mares de sonhar
ponho os pés no sal
para me abençoar

cheiro litoral
que é de marejar

o que é da terra é térreo
e a terra tornará
o que é dos deuses conta
enfeita Iemanjá

e segue procissão
mil ondas do mar
mil ondas de som
de pérola lilás

notas de oração
vela mil sóis em si
atraca embarcação
que faz canção no cais

e quando chega e sai
inventa um novo mar

toda constelação
evoca esse fanal
além rebentação
vai som de Dorival

que agora eflui em luz
nação pedra do sal
em noite de luar
rebrilha em todo mar

08 agosto 2008

184



Cardume
ROGERIO SANTOS

cato cacos de poesia
como quem garimpa
palavras perdidas
num dicionário da vida

acaso forro aflore
na Ilha das Flores
um eu expectador
personagem ou diretor

invoco terços vocábulos
verso tríade incesto
os Zés e meus eus
entre pilhas de dejeto

masco nós e cós e cuspo
como pet e pão e domo
minha terra prometida
meu maná estilhaçado

devoro por essa vida
tanto tudo todo todo
remo e rede e barco
e esse peixe multiplicado

que todo peixe é palavra
um feixe no xis da questão
aquele que nada e se cala
é peixe de um novo Sião

06 agosto 2008

183



Bolinho de Chuva
ROGERIO SANTOS
(para Douglas Doug)

hoje não quero chorar
hoje vou por pra correr
pensamento
costuro as colchas
da velha casa
no cheiro da terra molhada
a mesa farta
de riso solto
de bolinho de chuva
e papo bom

hoje só quero saber
de ser
de ter
hoje não quero nem ver
espelho
...espelho
......retalho
.........espelho

espelho meu
de que lado estou ?

braços abertos
seguir viagem
se é noite no oriente

fechados olhos
abertos sonhos
a vida é um prazer latente

canela, açucar
abertos sonhos
quero ser café-com-leite

amor carrego
no paladar
um sabor de creme

invade a tarde
e o dia chega
tão docemente
naquele meu lugar

é sonho, é sonho, é sonho
é sonho, é sonho
é sonho bom....

é sonho, é sonho, é sonho
é sonho, é sonho
é sonho bom....

é sonho, é sonho, é sonho
é sonho, é sonho
é sonho bom....

30 julho 2008

182



Pavio
ROGERIO SANTOS

a saudade
é um pavio aceso
e nos transporta
inerente
qual no trilho um trem
dormente e dormente

inércia queimando
o que era futuro
e arde linha tênue
fração de segundo
e num instante "puft"
jaz barbante

no fim de toda linha
o que fica é a saudade
e a cinza não apaga
candente marca
desassossegada

26 julho 2008

181



Olho nu
LÍRIA PORTO/ROGERIO SANTOS

as manhãs são loiras
as tardes são ruivas
as noites morenas

o sol
fica doido
a lua
rói as unhas
e o vento atrevido
que lambe de leve
a perna
das moças
aquece a libido
provoca umidade
hálito de chuva
& arco-íris

com essa atmosfera
todo cuidado
...todo cuidado
......todo cuidado
.................é pouco

num piscar de olhos
vamos nós
nus & naus
rodopiando
em zona
de alta pressão

12 julho 2008

180


(foto: Janaína Menegaz)

Folha de Cima
ROGERIO SANTOS

olho uma folha que vai
no rio corrente
uma só folha que vai
buscando o mar

porque é preciso sonhar
e navegar
porque é preciso sonhar
banho de mar

em toda folha há de ter
a vida urgente
uma só folha é de ler
e tracejar

porque é preciso sonhar
e navegar
porque é preciso sonhar
beira de mar

quero uma folha também
vou embarcar
uma só folha me dêem
e rumo ao mar

porque é preciso sonhar
e navegar
porque é preciso somar
contas de mar

e não importa chegar
não é urgente
o que importa é o ato
de embarcar

nada é urgente demais
para adiar
em cada folha pintar
cores de mar

01 julho 2008

179


(foto: Cátia Rocha)

Balada das Ondas do Mar
ROGERIO SANTOS

o amor contém o mar
como a flor namora o mel
e a abelha o girassol

passeia no som paladar
um banquete de fonemas
quitutes de doce ilusão

molhar os lábios de sal
champagne sabor borboleta
mal-me-quer meu querubim

bem-me-quer te quero bem
onde há amor há o mar
pleno de luz no habitat

onde a rima faz morada
abelha poeta ferrão
se quer amor quer o mar

se quer a flor quer o pão
mal-me-quer te gira sol
bem-me-quer meu coração

28 junho 2008



alçando novo vôo em 16 de Julho...
- vou botar o meu bloco na rua -
(a canção foi feita para ser cantada)
várias canções autorais no repertório
parcerias com Tony Pituco Freitas
Floriano Villaça e Andréa dos Guimarães

todas com letras postadas e espalhadas
nesses quase 3 anos de "folhadecima"...

quem for de Sampa ou estiver por aqui....
o convite está feito...
apareçam no Café Piu Piu dia 16/07 - 21:30

25 junho 2008

178



Da lua
ROGERIO SANTOS

nos olhos da lua
nos desejos refletidos
aluar é preciso

21 junho 2008

177


(foto by: Rose Poulain)


Azuis
ROGERIO SANTOS

que azul é esse que gruta na aura
carrega o sorriso no som do badalo do sino
que azul é esse de tantra perverso
um lago perfeito onde não farta peixe
de tantos amares em abalos sísmicos
na falha da alma azul de metileno
azul que não se treva pintando sets
erosões verticalmente implacáveis
criados-mudos estrelas-do-mar em novos recifes
sem eira nem beira quem betoneira
escultura em doze graus na escala richter
reparte hemisférios como uma faca à laranja
por toda a exuberância de um leve momento
o azul do mar do céu no espelho dos olhos da cidade
é simples desmantelo e deleite nos olhos mareados de saudade


15 junho 2008

176



Santo Antônio
ROGERIO SANTOS

são mais lindas
as tardes de junho
dançam cores
nas tardes de junho
brilho fresco
como a brisa
que balança
bandeirinhas

são tão doces
as noites de junho
que saudade
nas noites de junho
todo o charme
das quadrilhas
com sabor
de paçoquinhas

vamos gritar
com a voz da alma
que nossa alegria
é sem ressalva

olha a chuva...
....é mentira
chama o padre
que o noivo quer fugir

e pula a fogueira
e apaga a mágoa
no sexto quentão
a moça casa

em louvor à Santo Antônio
vai deixar promessa paga
para o ano a mesma festa
pra aquecer a mulherada

05 junho 2008

175



Lance Livre
ROGERIO SANTOS

a boca está pela tabela
parto para dentro
tento uma bandeja
e novamente tomo um toco

a boca está pela tabela
tento um arremesso longo
não consigo acertar
e são menos três pontos

the book is on the table
e eu que não capito inglês
tento arquitetar
um único lance perfeito

the book is on the table
tempo esgotado
final de jogo
tiro meu time de campo

fique você com seu book
minha cara, essa tabela
não é qualquer artefato
door de madeira nobre

01 junho 2008

174


(foto by Flávia Melissa )

Multicolorido
ROGERIO SANTOS

a rosa é mistura
de branco e vermelho
no jardim

o verde é mistura
de azul e amarelo
no jardim

teus olhos misturam
as cores do fogo
e o branco do céu

teus lábios carregam
as cores da terra
na porta do céu

o azul rei mistura
a rosa e o turquesa
do jasmim

o bronze mistura
o verde e o vermelho
do jasmim

no céu da tua boca
viaja um vermelho
poente de mar

no céu dos meus olhos
a tela de nuvens
faz chuva cair

a chuva na tela
desejo aquarela
de rodopiar

mistura de cores
de pólen de flores
sutil paladar

28 maio 2008

173



Doação
ROGERIO SANTOS

quando me deu o coração
por amor ou puro truque
entregou com marca-passo

13 maio 2008

172



Outras Ondas
ROGERIO SANTOS

um poema quer surfar
nas ondas sonoras
das cordas da viola

12 maio 2008

171




Triângulo
ROGERIO SANTOS

ostentas
as tantas

os tesos
olentes
tentáculos

oscilas
ou tantra
ou mantra

ou trinca
ou trava
ou trívio

oscilas
ou tantra
ou mantra

os tesos
olentes
tentáculos

ou tentas
às tantas

09 maio 2008

170




Presente
ROGERIO SANTOS

(para a Rita Ritinha Cantora)
(para a melodia de Fernando Baeta)

o mar que herdei
guarda o destino que tracei
denso de erosão no olhar

navegar pelo rei
romper o ponto de partida
ventre-porto
sempre-vivas
olhos de velar

chover não sei
um vento leve me bateu
fez o amor em mim brotar

nesse sol que sonhei
há sete léguas de matizes
tintas tontas
pintam e bordam
linda embarcação
(azul)

08 maio 2008

169



O Juiz e a Sogra
ROGERIO SANTOS

eu tava tão bem na padoca em Santo Amaro
mas tinha que ver o meu time no estádio
roubado por um argentino salafrário
a minha bandeira virou escapulário

quem torce pra Portuguesa de Desportos
coração tudo pode aguentar

depois do apito ficou sapo entalado
além do nervoso inda me pisaram o calo
um dia vou ver esses caras rebaixados
e minha mulher fica me tirando o sarro

quem torce pra Portuguesa de Desportos
coração tudo pode aguentar

eu chuto o cachorro ela já descola um gato
pra ver o escroto mijando o meu sapato
ou faço vender para o cara do churrasco
ou fico com ele e ela sobe no telhado

quem torce pra Portuguesa de Desportos
coração tudo pode aguentar

a sua mãe liga o ar condicionado
só para dizer que precisa de um casaco
proponho mandar pro deserto do Saara
acabo perdendo metade do ordenado

quem torce pra Portuguesa de Desportos
coração tudo pode aguentar

ainda ventilam que sou muito encanado
que vivo apegado nas coisas do passado
eu como calado mas deixo meu recado
quem faz nessa vida aqui vai pagar dobrado

quem torce pra Portuguesa de Desportos
coração tudo pode aguentar

05 maio 2008

168



Pescador
ROGERIO SANTOS

para cevar uso vogais
como iscas consoantes
quando pesco
no intenso mar das palavras

o aço é leve
o fitoplâncton é pesado
e tudo é questão de paciência

as vezes nem frases dispersas
as vezes alguns sons guturais
e em dias banais, banais vocábulos

mas em dias de sorte grande
encho meu puçá
com belos e variados poemas

e preparo aquela festa
que minha aldeia banqueteia

23 abril 2008

167


(foto: Ricardo Zerrenner - www.zerrenner.fot.br)

Tons
ROGERIO SANTOS
(para a música "Laranjeiras" de Anthony Wilson)

quem viajou nesse lugar
com vento a beira mar
bem sabe as imagens que guardei

são tantas cores
tantos sons
fusão
desvendar as notas da canção pela tez

foi avistar o Galeão
pra pintar essa sensação
pincel de céu
de sal
de dor
amor assim no tom

Tijuca
Morro da Urca
até subir o Redentor
resplendor
tanta cor

tanta cor
entre tons tão jobins

notas de tons tão jobins

porque todos meus tons são jobins?

21 abril 2008

166



Cores
ROGERIO SANTOS

nas minhas paredes
as cores são tortas
sutis primaveras
do lado de dentro
um misto de cinzas
do lado de fora
e não vai tão longe
que ainda era dia
com vales e mares
por todos os cantos
janelas de ripa
de costela nobre
na dança poente
latente relógio
e o sol rabiscando
na veneziana

nas minhas paredes
as cores são mortas
com sete carrancas
postadas na porta
do lado de dentro
incenso de almíscar
que hoje era dia
de doce senhora
e flores do campo
de todas as bodas
janelas ao vento
cortinas de chita
no vaso de ervas
pimenta de cheiro
a dança latente
do sol quando aflora

nas minhas paredes
de cores tão tantra
as cores são tantas
que as cores tão francas
amores devoram

14 abril 2008

165



Filos
ROGERIO SANTOS

novo vôo
ovo novo
novo vôo

eu leve
tu lavra
eu livre
tu louvre

novo vôo
ovo novo
novo vôo

tu pêlo
eu pena
eu pena
tu pelo

apelos

apenas
há pelos

ovo novo
ovo novo
ovo novo

quanta
profecia
enfurnada
num mero
fiofó

03 abril 2008

164


Bailarina
Música: FLORIANO VILLAÇA
Letra: ROGERIO SANTOS

moça linda
baila nas retinas
rodopia no brinquedo
e desperta meus instintos
de parir poesia

salta para fora dessa caixa
dou-te corda e duas asas
vais voar num raro encanto

céu de bailarina
um vento nuvem sapatilha
deixa um verso pelo ar
chuva nos quintais
foz no paladar

dentro desse canto
que me embala
vou jogar as minhas asas
e voar
também sei bailar

quando as coisas da vida
se complicam
pedem vento nos cabelos
e momentos de silêncio

caminhar pelo sereno
faz mais leve a madrugada
no compasso dos ponteiros
acordar a passarada

sonho com o dia
- bailarina -
vou morar na tua caixa
abraçar a minha sina
sem dizer palavra

juntos nesse mundo de poesia
nosso amor é bem mais simples
do que o despertar do sol

02 abril 2008

163



Ecos de Minas
ROGERIO SANTOS

a cadência dos santos
exalta Minas Gerais
com leveza de gongá
feito em notas musicais

e alcança toda graça
pela Missa dos Quilombos
que ainda hoje ecoa
na Igreja do Caraça

e faz som de cachoeira
e tem sabor de cachaça
e faz no sotaque mineiro
um Deus da mistura da raça

protetor de notas e acordes
embala no som dos tambores
o toque de todos os povos
e a paixão de mil amores